Alguns Truques de PAN – Parte II

In blog by zasnicoff

No primeiro artigo falamos de gravações estéreo e como diminuir a “largura” e ajustar a posição de instrumentos para equilibrar o panorama no mix. Hoje vamos ver a situação oposta: como “alargar” o áudio quando o instrumento está muito “pequeno” ou “mono”.

OUVIDOS INTELIGENTES

Só para você ter uma idéia de como o nossa audição é complexa, até hoje, médicos cientistas não conseguiram explicar alguns pontos do funcionamento desse sistema incrível. É por isso que continuam surgindo tecnologias e estudos, software e hardware, para simular e até exagerar algumas das percepções que temos.

Basicamente, a noção de panorama está relacionda às diferenças de intensidade e tempo entre os sons que atingem o ouvido esquerdo e o direito. Se um som vem da esquerda, necessariamente ele vai atingir o ouvido esquerdo com um pouco mais de intensidade e um pouco antes do som que atinge o direito. Essas diferença são mínimas, mas suficientes para apontarmos a posição da fonte sonora com os olhos fechados.

Em paralelo, a cartilagem que envolve o ouvido incrementa ainda mais este senso de direção, canalizando e filtrando frequências. É por isso que sabemos, por exemplo, se o som vem de cima ou de trás.

Teorias à parte, já podemos imaginar que um plugin pode brincar com estas varíaveis (intensidade, atraso, frequência) para tentar enganar nossos ouvidos e fazer o áudio mono ganhar forma, tamanho, e parecer vir de uma determinada posição e distância.

Steinberg Stereo ExpanderOs “Stereo Expanders” se baseiam nestes truques para aumentar a largura de um instrumento. É claro que a capacidade de enganar está intimamente relacionada ao algoritmo do plugin, ao estilo musical, ouvinte e monitoração. Aliás, como quase tudo que fazemos na mixagem. Um medidor de fase pode ajudar a indicar quando o efeito está exagerado.

Um dos mais simples de usar, com excelentes resultados, é o modelo da Steinberg, que vem incluso em vários pacotes da empresa, como o Wavelab e o Cubase.

Repare como ele também pode ser usado para valores negativos. Ou seja, deixar um áudio estéreo mais mono, conforme vimos com o dual-panner no primeiro artigo.

Este pode ser o tempero que faltava no seu projeto para dar mais vida e interesse. Costuma ser bastante útil também no mix final LR, como ferramenta de masterização.

PARA ACERTAR A POSIÇÃO DO PAN

Agiora vamos supor que todas as suas trilhas já foram editadas com dual-panners e stereo-expanders, e que estão com a “largura” desejada (muitas vezes chamada de “corpo”). Resta saber em que posição do panorama elas devem ser colocadas: L32, R40%, extremo L, centro, R12?

Um mapa de mixagem pode ser muito útil como ponto de partida (falarei mais sobre mapas num próximo artigo). Na falta de um planejamento e, principalmente, quando a monitoração e sala não ajudarem muito, estas são dicas que podem salvar o dia:

  1. Coloque todos os instrumentos no centro e faça um rough mix (rascunho) ajustando os volumes. Não se preocupe com ajustes finos neste momento, é importante que nada soe artificial, fraco ou exagerado.
  2. Deixe Equalização, Reverb e Compressão para o final. onde serão melhor ajustadas.
  3. Ajuste o pan de cada canal de acordo com seu mapa de mixagem. O importante aqui é acertar por cima as posições, pelo menos aquelas que você já definiu.
  4. Vá SOLANDO grupos de instrumentos, principalmente aqueles que estão próximos no pan, de maneira que todos soem audíveis e isolados. Não economize nos controle de MUTE e SOLO, testando várias combinações.
  5. Se há muitos canais, a diferença de panorama entre eles será pequena. Se há poucos canais, a diferença pode ser grande e cada instrumento tende a ser mais “largo” no controle de dual-panner ou stereo-expander daquele canal.
  6. Eventualmente utilize fones de ouvido, para acentuar o palco sonoro e fazer ajustes finos.
  7. De tempos em tempos, transforme a saída principal LR em MONO. Isto serve para verificar possíveis cancelamentos e perda de informação, bem como alteração de timbre. No caso de ocorrerem estes problemas, talvez seja necessário voltar atrás e ajustar a largura daquele canal em particular. Depois, regule novamente o seu pan.
  8. Muitas vezes, você pode resolver um problema trocando o instrumento de lado. É importante que cada lado do estéreo esteja equilibrado por si próprio. Utilize o controle de BALANCE do barramento de saída para ouvir cada lado individualmente. Existe muita diferença de volume ou timbre entre os lados? Normalmente isso não é bom.
  9. Quando todos as trilhas estiverem tocando, faça um último ajuste. Veja se tudo está audível e se não há competição no panorama. Confirme se toda a largura está sendo utilizada, se não há concentração em um determinada região. É hora de afinar volumes e efeitos.
  10. Lembre-se que o reverb de cada instrumento TAMBÉM pode e deve ter seu panorama ajustado. Depois de colocar os efeitos, regular EQ e compressão, volte a fazer mais um ajuste de panorama, desta vez tocando todas as trilhas e regulando o pan dos retornos de efeitos.

O leitor Marcos deixou algumas perguntas nos comentários do primeiro artigo.

Marcos, não há regras para reverb, mas de fato, muitas vezes o melhor caminho é colocar o intrumento seco de um lado e o reverb do outro, principalmente quando o estilo permite e há congestionamento no mix.

Sobre overheads, sem dúvida! O pan de cada peça da bateria deveria “casar” com o estéreo do overhead, para maior naturalidade e timbragem. Para tanto, você pode solar overheads com cada uma das peças por vez e ajustar o pan de olhos fechados.

Sobre o pan do master, veja minha dica acima. Encontrar a melhor posição de pan com a saída master em MONO ou escutando apenas um dos lados não é recomendado, por uma simples razão: o controle de pan transforma-se simplesmente em um controle de volume e perde-se o referencial de posição.

Boas mixagens!