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Programa de Índio

In blog by zasnicoff

criancas_revoltadasQuando eu era criança, havia um casal no meu prédio que adorava ir ao aeroporto de Congonhas para tomar café. Era um programa sério para eles, regular, levavam até os filhos. Meu pai achava aquilo tudo muito engraçado. Morávamos perto do aeroporto, mas não tão perto a ponto de justificar uma “passadinha” para tomar café. E olha que tínhamos muitos outros lugares com bom café (e café expresso) nas redondezas. Vai entender…

“Programa de índio” – dizia meu pai – e foi então que aprendi o que isso significava. Neste domingo, levei minha família para um belo programa de índio.

(Neste momento, não vou citar nomes, porque nunca se sabe, talvez eu acabe me envolvendo no projeto acústico dessa casa de shows. Pelo menos eu mandei um email oferecendo meus serviços. E talvez um ou dois comentários não muito gentis.)

Tudo indicava que seria um belo programa para o domingo: um espetáculo infantil de uma série famosa de televisão, famosa no mundo inteiro, pela qual meu filho de um ano e três meses já demonstra certo interesse – reconhece, dança e sorri. Além disso, seria numa das mais recentes casas de show na região metropolitana de São Paulo, cujo investimento da ordem de R$30 milhões prometia uma experiência inesquecível. E o ingresso não era nada barato.

Foi mesmo inesquecível.

Chegamos em cima da hora e simplesmente não existia a menor chance de eu encontrar os assentos, se é que podemos chamar de assentos. Mesas e cadeiras improvisadas se amontoavam na frente de um palco, sem qualquer numeração visível ou padrão de organização. Boa sorte! O palco, aliás, tinha um metro e meio de altura (sério, tente imaginar), como se dizendo: “crianças, afastem-se, não é permitido subir no palco e qualquer tentativa será perigosamente arriscada”. Os dois seguranças ao lado do palco reforçavam a seriedade militar da situação. Afinal, crianças de 1 a 3 anos de idade poderiam se organizar em um motim violento e invadir os camarins, além de agredir fisicamente os atores e botar fogo na estrutura.

Nossa mesa estava tão próxima da barricada que meu filho mal conseguir enxergar o elenco sobre o palco. Preferiu se contentar com os dois telões (com imagem desfocada, diga-se de passagem). A peça estava tão interessante que o menino da mesa do lado arriscou uma luta de espadas e meu filho aceitou o convite. Ele tinha uma espada, meu filho tinha outra, e quase toda a criança da platéia empunhava a sua arma colorida. Poucos pais conseguiram se livrar da tia que vendia as espadas de LED na entrada.

Não sei se era por causa da dublagem totalmente fora de sincronismo (sim, as frases em português eram pré-gravadas e NÃO, os atores não eram os atores originais), não sei se era por causa do som irritante, só sei que as crianças estavam cada vez mais distraídas com seus badulaques e cada vez menos interessadas na apresentação.

Ah, o som! Tomei um susto assim que entrei no salão.

Sabe som distorcido? Amplificador no talo? Cone rasgado? 10% de THD? Era algo desse naipe. Alto pra caramba, sem dúvida – deu pena dos ouvidos sensíveis das crianças – mas pior do que isso, totalmente distorcido. Juro que não dava para entender o que estavam falando (agora me ocorreu que talvez por isso os atores não conseguiam dublar…). A única frase que compreendi foi o anunciante dizendo que fariam uma pausa de cinco minutos para mudança do cenário. E adinhem!? O cenário não mudou!

Depois de uns 15 minutos, sem conseguir pedir uma coca, torcia para acabar. Pelo menos meu filho estava se divertindo com sua luta de espadas. Tomei umas três na cabeça, enquanto os pais das mesas ao lado começavam a acessar seus facebooks pelo celular. (Como tem gente que gosta disso, não? Não quero ser preconceituoso, mas não faltam mães no facebook, o dia inteiro no celular, enquanto seus filhos brincam sozinhos na mesa do restaurante ou no parquinho da rua. Acho que é uma das drogas mais pesadas da atualidade)

Voltando ao nosso mega-espetáculo-internacional. A esta altura, eu olhava para o line array bem acima da minha cabeça e rezava para ele não cair. Considerando a infra-estrutura do local, o nível de qualidade acústica e os assentos de classe executiva em que nos encontrávamos, não ficaria surpreso se as caixas de som caíssem sobre nós a qualquer momento. Por sorte a apresentação logo terminou.

Na saída, o sistema de som ambiente do hall de entrada parecia o melhor sistema de som do mundo! Pelo menos dava para escutar algo com clareza. A caminho do manobrista, passei pela tia que vendia as espadas. Santas espadas! Agradeci de coração, mas acho que ela não entendeu.