Zen_And_The_Art_Of_Mixing

Dicas de Mixagem do Mixerman

In blog by zasnicoff


No mundo do áudio, de vez em quando a gente se depara com uma leitura que abre a cabeça. Infelizmente, apenas de vez em quando. No ano passado os caminhos me levaram para o livro “Zen and The Art of Mixing”. Título curioso, autor mais ainda: Mixerman. Acho que eu comprei de tanto ver posts no Twitter. E um nome como esse não é fácil de esquecer.

Percebemos claramente quando um autor se esforçou para escrever algo de útil e está interessado em compartilhar um conhecimento. Mas sejamos sinceros: 90% do que existe por aí é tudo igual.

Artigos de revistas parecem rotacionar de uma publicação para outra. E o ciclo se repete a cada 12 ou 18 meses. Os mesmos textos, quase copy-paste. “Como Gravar ao Vivo; Segredos de Equalização; Automação sem Mistérios”. Alguns títulos chegam a dar desgosto e confesso desde já que meu blog provavelmente também tem alguns posts com títulos bem batidos, embora eu sempre tenha me preocupado em não escrever receitas de bolo. Estes textos não servem para nada a não ser impressionar quem está começando.

Não preciso ser radical. É claro que quase toda leitura traz algo de novo, nem que seja para relembrar um conceito, comparar um ponto de vista ou mesmo descobrir sobre o que nunca escrever no seu blog. Difícil é encontrar algo que dê vontade de reler, arquivar, comentar e compartilhar.


Como disse, ano passado eu li “Zen and The Art of Mixing”. Acabo de ler novamente.

Os livros tendem a ser mais heterogêneos, porque pedem um enfoque mais amplo e detalhado. Portanto, acabam transparecendo a personalidade e a experiência do autor, mesmo que não seja esta sua intenção.

Em tempos de Big Brother, vale uma comparação: escrever um livro é como se expor no BBB –  mais cedo ou mais tarde as máscaras caem. Dá até pra faser pose em um artigo de 2.000 palavras, mas em um livro de 200 páginas você se revela – o que pensa, valoriza, acredita e despreza.

(parênteses: mais uma vez, como acontece com os melhores livros de áudio e produção musical, não existe versão em Português e provavelmente não existirá por pelo menos mais 10 anos. E quando chegar, deverá ter uma tradução lamentável, feita por quem não tem a menor idéia sobre o que está traduzindo. Já aconteceu mais de uma vez. Se você gosta de ler sobre o assunto e quer ter acesso aos melhores livros, é quase uma obrigação aprender Inglês)

Virou meu livro preferido. Li, reli, sublinhei, analisei, pratiquei. Cheguei a trocar mensagens com o autor, um cara nota 10. Sugeri uma tradução para o Português e disse que adoraira fazê-la. Quem sabe… Falei que ia comentar sobre o livro no meu Blog e indicar para os leitores. Promessa cumprida.

Eu poderia escrever bastante sobre o que aprendi e sobre a maneira única e eficaz que Mixerman encara o processo de mixagem. Mas prefiro jogar algumas frases marcantes do livro. É uma espécie de tradução não-autorizada e provavelmente estou entregando muitas pérolas de graça. Espero que sejam encaradas como exemplos didáticos e convençam você a comprar o livro:


quote

Durante o dia eu estudava arranjo e composição na Berklee. À noite, eu gravava e mixava qualquer coisa que eu que eu conseguisse botar minhas mãos. Trazia bandas de Berklee. Eu estava escrevendo e gravando com amigos. Eu vivia e respirava música. Mesmo com esse nível de disciplina, ainda demorou bem mais do que 3 anos para que minhas mixagens começassem a competir com os verdadeiros “pros” da época.

Pode jogar fora suas primeiras mixagens. Elas não vão valer nada. Se estes mixes constituem seus primeiros 10 ou 100, não se pode prever com precisão. Só porque suas primeiras mixagens são horríveis não significa que você deve desistir. Mixar é difícil. Você vai melhorar. Cada mix será melhor que o anterior e seus progressos não terão nenhuma relação com qualquer equipamento ou técnica famosa que você leu na Internet.

Um mix muito equilibrado seria exatamente o oposto de um ótimo mix, e isso é sem dúvida um erro comum na mixagem. É como uma doença.

Seus julgamentos no início da mixagem são inevitavelmente falhos, dada a completa falta de informação. A boa notícia é que ninguém vai morrer por causa dos seus primeiros chutes.O cara da gravadora não está lá atrás na sala esperando para levar seu mix para a fábrica duplicar.

Sinceramente, monitorar em volumes variados é muito mais benéfico para a compatibilidade do mix do que mixar com diferentes pares de monitores.

O cérebro tem dificuldade para distinguir entre o que é realmente grandioso e o que é uma grande melhoria feita por nós. Realmente, a única solução é deixar o mix envelhecer. Percebe o dilema? Você pode ter entregue o melhor mix humanamente possível dentro das circunstâncias e mesmo assim ele ser apenas medíocre em comparação com o resto. Triste, eu sei.

De vez em quando, um cliente me fala sobre uma parte genial que funciona absurdamente bem se mixada com inteligência a ponto de nem escutarmos. Besteira! Se você não consegue escutar um elemento no mix, ele não tem a menor utilidade a não ser ocupar espaço.

Ninguém vai deixar de comprar uma música porque ela não se encaixa em certos modismos de produção e mixagem (exemplo: AutoTune).

Eu vou economizar seu tempo. Perguntar para um grupo de estranhos a opinião deles sobre uma ferramenta tão comum quanto um compressor ou limitador resultará em nada mais do que informações inúteis.

O único conselho concreto que eu posso te dar sobre o melhor tipo de monitor para você: não compre monitores antes de testá-los em sua sala. Não me importa se você mora no meio do Alaska, você está jogando dinheiro fora comprando um par de monitores que não foram experimentados no seu ambiente.

A Internet é um ótimo lugar para conseguir maus conselhos sobre compressão estéreo. O maior mito é que a compressão do bus LR deveria ser deixada nas mãos do engenheiro de masterização. Francamente, eu me ofendo profundamente quanto um engenheiro de masterização coloca um compressor no meu mix.

Eu te garanto que 99% das pessoas que alegam que equipamentos digitais baratos são mais precisos do que fita analógica são surdas ou então realmente nunca finalizaram um mix em um bom gravador estéreo.

O importante não é quem você conhece no mercado, é quem você evita.

Claro, boas explicações nem sempre são suficientes. Às vezes você precisa empregar estratégias persuasivas. Você ficaria surpreso com o que pode conseguir quando diz as coisas sorrindo. “Ok, agora eu preciso do meu tempo sozinho”, dito com um sorriso, normalmente resultará em uma sala de controle vazia e silenciosa.

Explicar a visão global para o baterista que pensa que está muito baixo no mix é tipicamente um exercício de futilidade.

Clientes que tentam negociar o seu preço baseados em outras ofertas menores devem ouvir imediatamente que custa muito mais fazer algo duas vezes do que fazer certo de primeira.

Sempre existirá algo na sua mixagem que incomoda alguém.

Invariavelmente, todo mixador decide que pode masterizar seu próprio trabalho. E invariavelmente, acaba percebendo que não pode. Eu sei que isso parece ridículo. Você mixou a maldita música, por que não poderia masterizar? Bem, você até pode, mas isso não vai trazer nenhum benefício.

Quanto você deve cobrar para mixar? Bem, isso depende tanto de quão bom você é e de quantas pessoas sabem o quanto você é bom. Também depende de quanto cobra a concorrência. Um mixador de qualidade (aquele que cobra por seu trabalho e não por seu nome) irá cobrar entre $1500 e $3000 por faixa.

quote

Se você escutar sua biblioteca de músicas, eu garanto que encontrará músicas que soam uma merda, mas você pensa que soam perfeitas.

Se você entregar os arquivos da sessão para seu cliente, você corre o risco de eles fazerem ajustes não autorizados nas suas mixagens, e eu te digo, com certeza eles farão.

Mesmo com a tecnologia atual, as melhores mixagens vêm das melhores gravações das melhores performances dos melhores arranjos.


É revigorante ler sobre mixagem e não encontrar as tradicionais dicas de tempo de attack para o compressor ou procedimentos infalíveis para equalização do bumbo. Melhor ainda, você tem acesso a assuntos raramente cobertos em outros livros. Tópicos que não se relacionam diretamente com técnicas de mixagem, mas que são tão ou mais importantes para o sucesso da carreira e do mix do que o próprio ato de mixar.

Às vezes você acredita em algo mas tem receio de compartilhar. E seu eu estiver viajando nas idéias? E seu eu falar besteira? Bem, isso realmente pode acontecer (e acontece), mas é ótimo quando alguém com uma discografia e experiência muito maiores do que a sua compartilham da mesma visão. É como um respaldo, dizendo: “acredite, é por aí mesmo, não tenha medo de encarar seu trabalho dessa forma”. É exatamente isso que eu senti ao ler o livro.

Uma coisa é uma revista escrever “não existem receitas” e na semana seguinte vomitar receitas sobre o leitor. Ou você acredita em algo ou não acredita. Outra coisa é ter uma postura firme e, ao mesmo tempo, estar aberto para descobertas. Mixerman é daqueles que nunca está em cima do muro. Sua segurança nos dá segurança e, cá entre nós, é preciso muita segurança, experiência e coragem para dizer algo como:


“A primeira vez que um cliente me entregou uma pista DI de guitarra, eu a mixei na música exatamente como ele estava. Claro, na sessão de audição ele perguntou por que diabos eu não usei um simulador de ampli. Respondi perguntando a mesma coisa.”

Você leu o livro? Pretende ler? COMPRE! Leia!! Volte e deixe seus comentários.