sgt_peppers_beatles_cutouts

Sgt. Pepper’s contra SMiLE

In blog by zasnicoff

Uma das coisas legais de ter um blog é poder desabafar, e eu preciso desabafar! Talvez não agrade muita gente, mas neste momento a opinião está bem clara na minha cabeça.

Quem disse que um escritor tem sempre certeza sobre o que escreve? Blogar é justamente uma oportunidade para refletir, reavaliar, estudar, comparar, formar uma opinião – que certamente pode pudar amanhã. Eu adoro ler meus próprios artigos de meses atrás, para ver como meu modo de escrever mudou (piorou?), que opiniões eu tinha, deixei de ter ou ainda tenho.


sgt_peppers_beatles_cutoutsNo início desta semana eu estava olhando os discos da Livraria Cultura. Às vezes acho alguma coisa interessante, algo que eu li de um crítico que acompanho, um álbum polêmico ou uma banda nova. Gosto de comprar CDs para ler o livreto, escutar o disco de cabo a rabo e poder criar minhas próprias impressões. Nesse sentido, às vezes compro discos que foram mal avaliados, mas faço questão de não escutar nenhuma faixa pela Internet antes de comprar.

Na seção de lançamentos, encontrei o novo do Wilco – que tem ótimas resenhas – mas infelizmente estava muito caro. Fica pra próxima.

Peguei um Chris Cornell ao vivo (apesar de não ter a faixa do CCR que ele tocou no show) mas já me arrependi no carro. Bem fraquinho, não consegui passar da terceira música. Alto, comprimido, brilhante, cansativo – uma performance monótona, um áudio que não ajuda em nada e comentários clichês do tipo “essa próxima é sobre fazermos um mundo melhor, e não um mundo mais triste”.

Comprei também um Michael Bublê para a esposa. Neste último disco, como quase todo artista em algum momento da carreira, ele acabou se rendendo ao “especial de Natal”. No geral, o álbum cumpre bem sua proposta e fiquei até inspirado para gravar “Ave Maria” de Schubert (que também tem uma versão linda de 1967, do Stevie Wonder, caso você não conheça). Tenho um carinho especial pelo Bublé e seu show em São Paulo foi impecável.

Na sequência, uma coletânea dupla do Sting, porque… bem, Sting é Sting, sempre agradável, além de ser um exemplo perfeito de som e produção para quem é do meio. Além disso estava com bom preço.

Passando os olhos pelas prateleiras, parei na capa clássica do Sgt. Pepper’s. Fazia muito tempo que eu não escutava esse disco. Meu LP já tinha sumido há anos e não me recordava de ter comprado nenhum CD remasterizado. Por que não comprar um agora, é quase uma obrigação! Mais um pra cestinha.

No caminho para o caixa, me deparei com a lenda, com o mito dos Beach Boys: “SMiLE” – conhecido como “o melhor e o mais famoso disco nunca lançado”. As críticas que saíram nos últimos meses estavam animadas: “Finalmente, o disco mais aguardado do século”; “Mixado das fitas originais”; “Takes inéditos de Brian Wilson”.

Nunca fui muito fã dos Beach Boys, mas quem conhece a história do disco sabe que se trata de algo especial. Eu tinha que comprá-lo, nem que fosse simplesmente por razões históricas. As imprensa era unânime em suas avaliações: nota máxima.

Smile começou a ser produzido em 1966, mas nunca foi finalizado. Um fantasma do rock que chegou a ser re-gravado em 2003 pelo próprio Brian Wilson, mas como não era produto das sessões originais arquivadas, deixou um gostinho amargo na boca dos fãs, que sempre aguardaram o lançamento do verdadeiro e único.

Ele apareceu agora em Novembro de 2011, 45 anos depois. Comprei o meu.


smile_beach_boysO que eu mais queria, no entanto, era chegar em casa e abrir o Sgt. Pepper’s Lonely Heart Club Band. Essa master de 2009 está excelente, com mini-documentário, fotos, textos e um áudio fiel, sem limitação e com margem dinâmica original da fita (cerca de 14dB).

Você começa a se lembrar porque este disco é o que é, e como se tornou o clássico dos clássicos na história da música. Inovou em todos os sentidos: álbum-conceito, tema central, faixas sem pausas, capa original, sons inéditos, produção ousada, 17kHz no final do disco para “o cachorro desfrutar”, faixa oculta sem nexo, gravação de baixo via DI box, etc. etc. etc. – e tudo isso usando apenas 4 pistas de gravação.

O folheto explica muitas dessas inovações, realmente vale a pena comprar. De quebra, o disco ainda tem 13 faixas excelentes, muitas delas imortais.

É o tipo de disco (raro) que você lê, escuta, assiste, escuta, relê, escuta de novo e sempre gosta, cada vez mais. Dá vontade de ser criança e recortar os “cut-outs” que acompanham o encarte (que foram feitos justamente para serem recortados).

No dia seguinte, abri meu Smile. Não tinha nenhum encarte além do livreto tímido com texto do Brian Wilson, 19 faixas, mais 8 de bônus, áudio mono “improved full dimensional sound” (o que quer que isso signifique) e caixinha tradicional em acrílico. Reparei que essa versão nacional era reduzida, pois o lançamento original tinha opções em CD duplo, LPs ou box especial, com diversas faixas adicionais e um livreto de 60 páginas.

Retirei o encarte e comecei a ler. Brian Wilson conta um pouco da história do disco, explica que é um perfeccionista (por isso nunca tinha terminado o disco), diz que finalmente estava lançando o seu álbum querido, deixa bem claro que ele e seu parceiro letrista eram geniais na época e como as lindas músicas vinham naturalmente sem esforço, blá blá blá blá blá. Durante o texto, não consegue deixar de mencionar os Beatles duas vezes e encerra dizendo que o disco nos faria SORRIR – por isso se chamava Smile – e que este era seu único e grande objetivo.


Escutei. Juro que escutei tudinho, me esforcei, mas não consegui sorrir nem por um segundo.

Durante a audição, tudo foi ficando muito claro. Onde ele escreve “perfeccionista”, eu leio “desesperado para fazer um álbum conceito inovador, porém sem talento, sem repertório, sem produtor e sem banda à altura”. Onde ele diz “sorrir”, eu entendo “chorar de desgosto”. Onde ele afirma “lindas músicas”, eu escuto “uma colagem de besteiras que não fazem o menor sentido”. Onde ele alega “inovações dentro do estúdio”, eu vejo “uma tentativa descarada e mal sucedida de copiar os sons do Sgt. Pepper’s que acabara de ser lançado”.

Até agora estou procurando uma melodia, ou qualquer coisa boa, que tenha ficado marcada em minha cabeça. Das 27 faixas, talvez existam duas razoáveis – que aliás já eram conhecidas e já tinham sido lançadas – porém nada mais. O disco é uma verdadeira bagunça.

Que ele pense que sua obra prima é tudo de bom eu até entendo. O que não faz sentido é a quantidade de críticas favoráveis nos sites e revistas especializados. Como alguém pode comparar esse disco a Sgt. Pepper’s, ou a qualquer outro álbum decente que tenha sido lançado nos últimos 45 anos?

Ainda bem que não comprei o box especial com livreto de 60 páginas. De duas uma: meu gosto é pouco apurado ou tem muita gente por aí com medo de falar a verdade.