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Compressores Clássicos (1176 e LA2A)

In blog by zasnicoff

fairchild_670Eu sempre digo que um compressor é apenas um compressor. Para gravar e mixar, um bom engenheiro pode chegar ao mesmo resultado usando praticamente qualquer modelo. Basta que o compressor seja versátil e tenha boa qualidade de áudio.

Estamos falando de 90% ou mais dos compressores existentes, reais ou virtuais, analógicos ou digitais. Eles possuem controles de threshold, attack e release, mantendo as distorções bem abaixo de 1% (THD) na maior parte do tempo. Não causam colorações a ponto de descaracterizar o timbre e fazem aquilo que se propõe a fazer: diminuir a faixa dinâmica do áudio. As passagens suaves tormam-se audíveis e as passagens fortes não causam saturações.

De quebra, ainda podem alterar os ataques e decaimentos dos instrumentos, limitar picos ou gerar alguns efeitos criativos. É justamente aí que entra o usuário.

Se um compressor funcionasse perfeitamente para qualquer tipo de música, não teria controles. Óbvio, não? Mas o grande problema dos controles é que temos que aprender a usá-los e nem sempre isso parece óbvio para as pessoas. A verdade é que poucos usuários possuem o interesse e a dedicação para ler manuais, praticar, experimentar, comparar, escutar e aprender.

Isso é bastante verdade também no meio profissional. O que não falta é gente de renome falando besteira – a ignorância rola solta, caro leitor. E é exatamente isso que explica porque alguns equipamentos se tornaram clássicos: são fáceis de usar.

Os modelos mais famosos quase sempre foram projetados para uma aplicação específica, para um determinado tipo de som. Não são exatamente versáteis, mas deixam a vida do engenheiro mais fácil (pelo menos deixavam, porque são tão antigos que raramente funcionam bem por mais de algumas horas). Os equipamentos clássicos pedem manutenção constante e nem sempre soam tão bem quanto antes… mas você sabe… é muito difícil ser racional a ponto de abandonar uma lenda em busca de um substituto melhor.

São escassos objetos de desejo, com preços exagerados e uma legião de puxa-sacos que nem sabe porque puxa tanto o saco: “Esse compressor deixa o som perfeito, não posso viver sem ele!”, praticamente insultando a capacidade de músicos, engenheiros e produtores – como se transistores, válvulas e transformadores fossem mais importantes para a música do que as pessoas que a fazem.

Vamos conhecer um pouco mais sobre dois dos modelos mais famosos entre os famosos:

1176

1176Desenhado pelo próprio Bill Putnam – que hoje representa a Universal Audio e o modelo oficial comercializado – foi concebido como um “peak limiter”, com tempos de ataque e release bem rápidos. Talvez os mais rápidos da época e isso por si só já pode explicar boa parte da sua fama.

Na prática, podia limitar picos de uma forma bastante transparente e tornou-se a ferramenta ideal para elevar o nível de intensidade do áudio, sem distorções aparentes (mesmo porque, também funcionava como um potente amplificador classe A).

No mundo digital, potência não é tão essencial e hoje em dia esse tipo de limitação pode ser feita por dezenas de outros compressores – inclusive com menos ruídos e distorções –  por uma fração do preço. O Stilwell Rocket é um compressor extremamente rápido com características do 1176, com boa interface e custa US$49.

Muitos alegam que o 1176 é fácil de usar (particularmente acho os controles confusos) e confiável (para mim não existe nada mais confiável do que um plugin digital de uma boa marca) e que, além disso, tem a propriedade de deixar o som mais “brilhante”. Não existem equalizadores que fazem exatamente a mesma coisa?

Já tive a oportunidade de usar alguns 1176 em 4 ou 5 ocasiões e minha experiência foi, digamos, normal. Nada de mais, apenas um bom compressor, com ataque rápido. Eu não pagaria US$2.000 para isso, muito menos $5.000 ou $10.000 por uma unidade vintage original (provavelmente cheia de defeitos).

LA2A

LA2ACom mais de 50 anos de idade, foi originalmente projetado pela Teletronix para seu usado como AGC (controle automático de ganho) em transmissoras de rádio.

Em contraste com o seu primo 1176, o LA2A atua sobre a macrodinâmica da música, com tempos de release muito lentos e uma taxa de compressão bem maior. Seu nome já indicava sua aplicação favorita – “leveling amplifier” ou “amplificador nivelador”.

Talvez o seu grande “segredo” seja o tempo de release composto – originado do mecanismo óptico eletro-luminescente – que claramente tem seus méritos em aplicações transparentes de controle de volume. Foi um marco no mundo do áudio. Na época, praticamente não existiam equipamentos com este nível de ruído tão baixo, resposta plana e conexões balanceadas.

Muitos usuários (ou palpiteiros que nunca encostaram no equipamento) dizem que ele pode comprimir 20, 30 ou até 40dB sem efeitos colaterais: “Uma mágica, tenho que esconder o medidor para não assustar o cliente!”. Quanta besteira…

A quantidade de compressão (GR, ou gain reduction) não diz nada sobre a sonoridade do compressor. Basta lembrarmos que um medidor GR constantemente em 20dB é exatamente a mesma coisa que abaixar o ganho de saída em 20dB – um processo linear e estável, sem qualquer dano maior ao áudio.

Mais importante do que a taxa de compressão, é como essa taxa varia com o tempo, com que perfil e velocidade. Isso sim tem relação com o mecanismo de compressão (FET, VCA, OPTO etc.) e com os controles do compressor.

O LA2A tem apenas dois controles e realmente a facilidade de uso tem papel fundamental na sua popularidade. O seu grande (e talvez único) diferencial em relação a outros compressores mais modernos é o tempo de release característico. Trata-se de um perfil “duplo”, bastante conhecido, que pode ser (e já é) simulado de maneira convincente por diversos equipamentos e plugins. Na verdade, se o usuário tiver domínio sobre seu equipamento e souber onde quer chegar, não terá dificuldades em conseguir um resultado bastante parecido com qualquer plugin decente que ofereça tempos de release longos e uma curva óptica.

Os céticos não trocam o original por nada e pagam de US$3.000 a $30.000 por uma unidade. Algumas delas caindo aos pedaços.


mcompressorMais uma vez, os fatores históricos acabam obscurecendo a razão. Nem vale a pena entrar em uma discussão desse tipo com um proprietário emotivo!

É claro que eu apoio a facilidade de uso, assim como respeito e acredito nos julgamentos dos profissionais experientes. Nunca diria que são equipamentos ruins ou que deixam de merecer seu status de qualidade e bom desempenho. Minha alegação é que provavelmente não valem o seu preço, e definitivamente não são insubstituíveis.

Eu também curto hardware analógico, principalmente porque possuem botões, controles e medidores ergonômicos. No dia a dia, no entanto, é raro eu usar meu compressor externo. Ele está insertado no bus de monitor da mesa e me permite fazer rápidos testes de compressão, além de funcionar como limiter de segurança dos monitores. Para mixar, no entanto, a necessidade de trocar cabos e configurar barramentos simplesmente me obriga a usar plugins.

É a mesma questão de facilidade de uso.

Se o seu estúdio é primordialmente analógico, talvez faça sentido ter um ou mais compressores externos. Se você é focado em uma atividade, como gravação de bateria, produção de voz ou masterização surround, um modelo específico pode ser indicado, justamente para agilizar o trabalho.

Porém, para a maioria de nós, as ferramentas ideais são acessíveis, versáteis e duradouras, com baixo custo de manutenção, e que funcionem bem em projetos variados. Há muitas que não deixam nada a desejar.

Escolha um plugin versátil – de uma marca respeitada – e torne-se especialista nele. Experimente criar um preset 1176 e outro LA2A. Com prática, eles soarão bem convincentes.

Se preferir, experimente emulações gratuitas, como essas da Antress Modern Plugins (nunca testei), que incluem os dois modelos deste artigo. Não se esqueça de compartilhar seus resultados e impressões aqui no blog.

http://dl.dropbox.com/u/9629869/FullPack4950.zip

Lembre-se: 1176 = limitador transparente; LA2A = nivelador de volume

Finalmente, convide alguns colegas radicais para um teste cego. Eles terão que descobrir qual é o plugin e qual é o hardware original.

Duvido que eles aceitem o desafio…