MIDI e Instrumentos Virtuais

In blog by zasnicoff

instrumentos_virtuaisUm amigo me disse: “É curioso como as pessoas ficam empolgadas quando os vídeo-games se parecem com a realidade. Ficam buscando a perfeição, aprendendo a usar controles, gastam tempo para praticar, aguardando novidades e comprando novos equipamentos… não seria mais fácil jogar tênis de verdade, em uma quadra real?”

É como se daqui a alguns anos dissesem “agora sim, atingimos a perfeição, parece realmente que estamos jogando tênis em uma quadra de verdade”. Bem, essa “perfeição” já existe, no mundo real. E melhor ainda: com suor, ar fresco e queima de calorias!

Naturalmente o vídeo-game tem suas vantagens. É um privilégio poder brincar no conforto de casa com amigos online, escolher o nível de dificuldade, sem precisar se locomover e nem correr o risco de se machucar. Sem falar que temos acesso a jogos que simplesmente não poderiam existir no mundo real. A tecnologia traz novas possibilidades, amplia nossas opções e tende a facilitar alguns aspectos cotidianos. Mas nem sempre é a melhor solução.

Desde que a música eletrônica existe – especificamente desde a criação do padrão MIDI – vejo duas correntes de pensamento na Indústria.

Uma delas procura trazer novas possibilidades para a criação musical, gerando timbres originais e interessantes, maneiras diferentes de se tocar instrumentos virtuais, facilidade de edição, controle de durações e afinações – um verdadeiro estímulo à experimentação, muito bem vinda e complementar à música acústica tradicional.

A outra corrente é aquela que pretende substituir os instrumentos reais. Bibliotecas de samples de bateria, microfonados em 24 posições diferentes nos estúdios Ocean Way, com 12 níveis distintos de instensidade, buscam aposentar os bateristas de plantão. Pianos virtuais. Violinos virtuais. Saxofones virtuais. E junto com eles, dezenas e dezenas de controladores diferentes, para serem acoplados em teclados, sopros, mesas de som. Tablets, botões, painéis, knobs, faders. Softwares de “humanização” para a criação de trêmolos e vibratos, para “errarem” propositalmente o andamento da música, como faria um baterista de carne e osso. E aí enrram os mapas de articulação, camadas de samples, controles de expressão CC MIDI – sistemas que buscam cada vez mais soar como os instrumentos reais. Precisamos de muito tempo e paciência para aprender a usar tudo isso.

Para soar convincente, um instrumento virtual precisa ser pilotado por um técnico/músico bem experiente, que não só entenda de música, como também conheça todos os macetes dos softwares e dos equipamentos utilizados. Alguém que já tenha dedicado vários meses de estudo, que tenha praticado bastante e esteja disposto a gravar e editar a música por um bom tempo. Talvez assim o som do instrumento possa então convencer.

Na prática, o que ouvimos diariamente – sobretudo nos bastidores da produção musical – são timbres “baratos”, rapidamente editados e mal tocados, que em nada lembram seus equivalentes acústicos e reais.

Já vi produtores gastando uma semana de período integral para ajustar a bateria virtual de uma música. Seria muito mais rápido, fácil e produtivo contratar um bom baterista! Um bom músico, em um bom estúdio, com um bom instrumento, poderia gravar aquela música em 2 ou 3 takes – coisa de uma hora. Mas aí reclamam que gastariam dinheiro.

Oras! Se a produção não justifica um investimento de R$200 para a gravação da bateria então há algo muito errado desde o começo. Aliás, as 40 horas gastas na edição da bateria provavelmente já custaram mais do que isso. Não faz sentido, é irracional e quase sempre o resultado não chega perto de uma boa gravação real.

Chegaremos ao ponto de exigir tanto do músico / técnico que seria muito mais fácil ele aprender a tocar o instrumento real.

O sonho dos desenvolvedores é atingir um patamar onde o instrumento virtual se pareça com um instrumento real, em sua forma, peso e toque. Que tenha a mesma interação com o usuário e possua um timbre acústico perfeito. O instrumento virtual será tão avançado, que o violão eletrônico terá um corpo de violão tão real, cordas tão parecidas com as verdadeira e timbres tão convincentes que, neste momento, será de fato um violão! Chegaremos de fato ao absurdo.

Não podemos nos esquecer do principal: a música.

O propósito da tecnologia é melhorar, não piorar. Baratear, não encaracer. Acelerar, não atrasar. Enriquecer, não empobrecer. Estimular, não desmotivar.

Hoje um assinante da Academia me perguntou se eu saberia citar um exemplo de uma música famosa que usou MIDI.

Há muitos discos famosos que usaram MIDI durante a produção, sobretudo os de música eletrônica. Isso inclui dance, hip hop, rock progressivo, estilos variados. Na verdade, quando digo “MIDI”, me refiro a qualquer processo virtual de geração de timbres, incluindo sintetizadores, DAWs, plugins, VSTi, módulos, triggers, samplers, controladores – mesmo que não exista de fato uma interface MIDI no caminho.

A princípio, MIDI não é o problema. MIDI é um importante aliado, desde a pré-produção, e funciona muito bem como acompanhamento, pads e coberturas. Timbres sintetizados, que não pretendem simular nada real, são mais do que apropriados e interessantes em muitas produções. O problema do MIDI é quando o produtor pretende “enganar” o ouvinte e não consegue, porque afinal é muito difícil ter o tempo, o conhecimento, o software e a disposição para atingir um resultado convincente.

Quase sempre, a melhor solução é gravar o instrumento real.

E você, conhece alguma música que consegue enganar o ouvinte fazendo bom uso de MIDI?