Comentários e Análises – Concurso de Mixagem

In blog by zasnicoff

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por Rafa Moreira – Baixista (Banda Macaxeira)

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Galera, tudo bom?

Queria dizer inicialmente que vocês todos estão de parabéns por ter essa iniciativa de trabalhar com produções sonoras. Com certeza, a música é uma dádiva do bem estar coletivo, além de trazer sempre um novo sentido para qualquer coisa que acontece em nossas vidas.

Sempre tive a música como algo inspirador, e essa é a razão principal de um compositor – que ao trabalhar com um produtor musical deve 100% transmitir a idéia do que estão pensando, para assim, fazer um trabalho sincero, cativante e profissional –

Ouvi as nove versões feitas e senti um campo muito largo de idéias. Como vi em alguns comentários. Foram sinceros, e totalmente voltados para uma preocupação maior com a audição da musica, sem tanto conhecer as mudanças consideradas técnicas. Prestei atenção na concepção do áudio e transparecer da arte. É muito legal ouvir opiniões distintas para a mesma canção. Alguns acrescentaram instrumentos, outros montaram novas introduções ou versões… Aí vai meu comentário sobre cada uma, e uma nota a seguir:

Mix A, feita por Marcelo Henrique
Sua introdução com o berimbau ficou show de bola. Todos aqui da banda sempre pensaram em colocar esse instrumento na música. Não na introdução, mas sim em todas as vezes que a capoeira aparece na música, impactante.. Bem legal! Senti um pouco de grave nas musicas, e talvez pudesse ter trazido as vozes um pouco mais pra frente. Cuidado com a percussão, ela é um tanto traiçoeira quando editada hehehe. No mais, você está de parabéns!

comentário de Dennis Zasnicoff: “Marcelo, sempre achei que um dos pontos fortes desta música é a existência de um berimbau, sem existir um berimbau! Ele está ali, no ritmo, nas cordas. Colocar um berimbau de verdade pode tirar um pouco deste efeito subliminar. No entanto, com certeza funciona e já que ele está lá, talvez eu colocasse em outras sessões da música, eventualmente até criando uma passagem puramente rítmica, como bridge! Áudio: talvez um equilíbrio mais cuidadoso dos volumes, sobretudo da viola. Cuidado com o longo tempo de reverb nos backings. Os graves estão com pouca definição, repare como é difícil identificar a nota do baixo, isto é bastante comum e muitas vezes resolvido com filtros de graves em torno de 40Hz. Parabéns!”

MixB, feita por Rafael Thomaz
Cara, muito bacana sua idéia hein? Você conseguiu misturar quase tudo nessa introdução. Senti apenas um pouco do tempo do Agbê que ta rolando, depois da frase “e a rainha do mar” – Como eu disse, a percussão tem instrumentos diferentes e difíceis de lidar, tanto para captação, melhor timbre, quanto para o tempo da música. Entretanto, senti as vozes mais pra frente. Mas podia ter deixado a segunda voz sem o efeito que colocou (parece um radinho, não sei qual o nome dele hehe), pois perdeu um pouco o sentido da mensagem.
Muito boa a montagem da introdução, mínimos erros.

comentário de Dennis Zasnicoff: “Rafael, sem dúvida uma introdução muito bem explorada! Certa vez escutei: ‘o que convida o ouvinte para a música é a melodia, o que o mantém interessado são as letras.’ – Neste sentido, nada melhor do que a introdução para trazer o ouvinte inteiramente para dentro da música. Nas versões experimentais de produção, cheguei a criar intros diferentes para esta música, no final a banda preferiu manter a proposta original das vozes, que também funciona bem. Particularmente, gosto da idéia de não entregar o ouro no começo, anunciar somente parte do refrão e deixar o resto para depois, como você fez. Áudio: Bom uso de panoramas e efeitos esparsos! Parabéns!”

MixC, feita por Vinícius Fantuchi
Sua idéia de trazer um efeito de chuva no final da frase, antes de iniciar a capoeira com todos os instrumentos, foi de mais. Trouxa a idéia da letra para a música. Essas coisas são arranjos fundamentais para transpor o que eu disse no texto de introdução sobre transparecer um sentido diferente, algo inspirador e que toque a alma do ouvinte. eu gostei do volume dos instrumentos! A viola ficou um pouco para traz e podia ter deixado a segunda voz como a versão original, sem o efeito do radinho heheh!
Você foi muito bem e está de parabéns!

comentário de Dennis Zasnicoff: “Vinícius, esta versão é um bom exemplo de como a escolha de efeitos espaciais, como delays e reverbs, influencia diretamente na atmosfera da música. Legal, acho que não tem certo nem errado, apenas diferente! Bom uso da sonoplastia, momento e intensidade certos. Áudio: volumes e frequências equilibradas. Parabéns!”

MixD, feita por Rafael Martins
Você trouxe também a idéia da chuva, e essa uma vez já me conquistou hehe. Porém, dessa vez, senti que ela ficou por cima da voz inicial! vc encurtou a introdução, e isso também fez com que ela perdesse o sentido real que a mensagem da música traz (que fala das composições dos grupos e nações de maracatu). No meio da música, houve uma parada, em que a chuva apareceu de novo! Achei que caiu muito a música e isso me deu um choque inicial. Como ouvinte, me senti um pouco perdido no meio da música.
Acho que vc pode explorar melhor a chuva, tendo como diferencial, mas se preocupar mais com as vozes e com a mensagem direta da musica. Trabalhar os rítimos e harmonia da música, junto com a mensagem e idéias que elas trazem.
Parabéns!

comentário de Dennis Zasnicoff: “Rafael, comentei há pouco que adoro estra intro que apresenta apenas parte do refrão! Sonoplastia de ondas certamente bem-vindas, cuidado com o sincronismo e volume. Muito interessante o contraste da saída e re-entrada de instrumentos, sou um grande defensor de variações, teria proposto mais na minha versão, se tivéssemos mais tempo de produção. Áudio: precisaria de um pouco mais de punch/volume, porém o mix está razoavelmente equilibrado, talvez com falta de médios, vozes demasiadamente secas. Parabéns!”

MixE, feita por Elder
Você trouxe a caixa do maracatu bem pra frente, e isso ficou bem legal!!! chegou bem próximo do que a galera das nações fazem e procuram mostrar. Senti muito grave nessa, não sei se foi isso exatamente isso que encobriu um pouco da guitarra.. Senti falta dela também. Gostei bastante da sua música. Você manteve a formação original e trouxe mais ritmo com a caixa colocada “na cara” da música. Parabéns!

comentário de Dennis Zasnicoff: “Elder, reforço o comentário do Rafa sobre a caixa, muito legal, tanto em timbre quanto em intensidade! Áudio: novamente, um pequeno excesso de reverb nos backing vocals. Espectro bem desenhado, com espaço para todos os instrumentos. Ligeira ressonância nos médios-agudos, lembro da minha master que 2 ou 3 tiveram que ser bastante atenuadas. Parabéns!”

MixF, feita por Felipe dB
Boa idéia Felipe! Lembrou-me todas as idéias sobre as composições do grupo LINK PARK e de outros DJs. Você compôs uma nova musica em cima da original, trazendo um pouco do rap e batidas eletrônicas. Talvez, não seria a melhor forma trabalhar com esse formato – pensando no tema, sensibilidade e intenção total da arte em si – Porém, analisando com o olhar da produção, você modificou e mesclou bem as batidas com algumas frases. Envolveu o ouvinte e trouxe a ele um novo clima. Falho um pouquinho no tempo de algumas coisas, como a guitarra em que surge às vezes do nada, mas no fim, você mandou muito bem!

comentário de Dennis Zasnicoff: “Muito criativo, Felipe! Acho que toda música tem o seu público e o seu momento de audição. Tem música que funciona às 18h40 no meio do trânsito engarrafado, outras que precisam ser apreciadas num ambiente escuro às 22h30. Com certeza sua versão encontra um nicho, mesmo que não tenha relação direta com a proposta original da música. Excelente uso de sampling e criação de texturas. Os elementos estão criados, só falta organizar um pouco melhor as sessões, contorno, repetições – para criar uma história com começo, meio e fim. Cuidado com o sincronismo das frases líricas e instrumentais.  Áudio: bastante limpo e pulsante. Parabéns!”



MixG, feita por Franscisco Maffei

Cara, você também trouxe bastante caixa pra musica e isso caiu bem legal! Senti muito grave na música, mas não atrapalhou tanto as vozes. Porém, a guitarra sumiu bastante, e senti falta dela. Por outro lado, a percussão também ficou bem perto e isso ficou demais, deixando a musica mais empolgada e ainda mais cativante!

Muito Bom!

 

comentário de Dennis Zasnicoff: “Francisco, talvez sua versão seja a que mais me lembre a versão original, então sou suspeito para avaliar ;-). Se você a utilizou como referência e buscou algo na mesma linha, missão cumprida! Áudio: bem equilibrado, com característica “aveludada”, porém com excesso de graves. Parabéns!”


 

MixH, feita por Ailton

Ailton, você inovou também ao deixar a musica sem a bateria. Ela perdeu seu impacto, mas surgiu uma força muito boa para a mensagem, o que também é importante. Talvez, poderia ter deixado a caixa, para dar um ritmo melhor, e não deixar a musica “sem vida”

Gostei, mas pense no impacto da canção!


 

comentário de Dennis Zasnicoff: “Ailton, interessantes a percussão adicional e a sonoplastia. A ausência da bateria acaba destacando outros elementos, mas em alguns momentos da música senti falta de um ritmo mais marcado. Talvez usar a proposta em apenas algumas sessões da música. Muito legal a frase no final! Embora tenha percebido alguns ruídos em outras versões, na sua, o apito regular que começa em 41s está bem nítido, cuidado! Parece ser algum plugin em modo trial, ainda não ativado. Áudio: bem equilibrado e quente. Parabéns!”



MixI, feita por João Ricardo

João, o efeito que você usou na guitarra deu um novo sentido para musica também, talvez, nem sei se essa foi sua intenção real. Talvez, se deixasse esse efeito como um elemento surpresa para a música, causaria mais impacto e ficaria mais atrativo, jogando, por exemplo, um no começo e um no fim da musica, ou um no começo e no meio, enfim. A segunda voz perdeu sentido também com o efeito que você colocou, ocultando a mensagem. Mas no geral, ficou bem legal, a voz principal apareceu bem, senti falta da viola caipira e de alguns arranjos de cordas.

 

comentário de Dennis Zasnicoff: “João, com certeza destaque para o phaser nas guitarras, que trazem uma nova personalidade para a música. Isso significa que temos um lado bom e outro nem tanto. Efeitos marcantes como este dificilmente convivem bem com outros elementos de destaque, portanto temos que escolher quem será o protagonista! Neste sentido, achei muito eficaz você retirar a importância e presença da viola, para não haver competição. Áudio: com bastante espacialdiade, muito bem equilibrado. Parabéns!”



Rafa Moreira – Baixista (Banda Macaxeira) – continua…

Difícil escolher uma, porém vejo a versão do Francisco Maffei (MixG) agradavel de se escutar! Todos estão de Parabéns!

Qualquer coisa, me adicionem no msn pra gnt conversar mais – rm_agressive@hotmail.com
Espero que voces gostem do som da Banda Macaxeira e nao deixem de acompanhar também, oks?

Tenham certeza que o Dennis Zasnicoff é um cara super gente fina, atento as novas idéias e perpectivas de produção, e com ele vocês estão seguros para aprender bastante coisa sobre técnicas e produção e bom convívio!

A banda Macaxeira indica os Studios Boca do Grilo para todas as bandas ou artistas musicais que quiserem registrar o seu trabalho e material sonoro!

Aproveitando a porta que o Dennis abriu pra gente aqui.. se quiser ouvir mais sobre o som e tudo o que banda Macaxeira faz, é só acessar:
www.myspace.com/macaxeira
www.youtube.com/bandamacaxeira
www.twitter.com/bandamacaxeira

quote*Orkut – Comunidade e Profile – Banda Macaxeira

Ta certo!?
Obrigado, vlw a todos!

Forte Abraço!



Comentários finais por Dennis Zasnicoff:

Pessoal, achei muito interessante este experimento, obrigado pela participação e cavalheirismo de todos.

Como disse lá atrás, a proposta era completamente livre, muito além de uma mixagem. Alguns participantes ousaram um pouco mais e aplicaram conceitos de pré-produção, o que achei muito legal. Outros preferiram seguir a linha de uma mixagem mais linear e orientada à versão original, o que também é muito válido, além de um excelente exercício! Talvez o que faltou um pouco foi o meio termo: editar sessões e contorno, criar uma história diferente, mesmo que usando as pistas originais da gravação.

Como produtor, só posso concluir cada vez mais que nossa idéia é apenas uma idéia. Quando escutamos outras versões e realmente nos interessamos pelas visões alheias, percebemos cada vez mais nossos próprios defeitos. Embora minha produção com a Banda Macaxeira tenha sido atipicamente rápida (e neste sentido eu e a banda ficamos orgulhosos do resultado), após escutar todas estas propostas, certamente eu faria coisas diferentes na minha versão!

Tenho uma teoria sobre “mixagem” que parece ter sido confirmada neste concurso. Aliás, esta teoria vem lá do conceito da “escala musipontos”, onde proponho que o maior peso no resultado final está sobre a composição, na essência da música. Depois, na pré-produção, em seguida nas gravações/interpretações e, finalmente, na mixagem e na masterização.

A idéia é que se tivermos R$10.000 sobrando no orçamento da produção e enviarmos as pistas para os melhores estúdios e profissionais de mixagem e masterização, teremos sempre versões muito boas e muito parecidas! Por dois motivos:

  • Não haverá nenhum problema grave de desequilíbrio de volumes, espectro, ruídos, super-compressão, graves, etc.
  • A música, em sua essência, não será prejudicada pelo áudio e poderá falar mais alto, mostrando todo o seu valor.

Como acredito que a música da Banda Macaxeira é fantástica, meu objetivo como engenheiro de mixagem e masterização foi sempre evitar problemas notáveis, para não atrapalhar a música e deixá-la respirar.

Neste nosso concurso, por mais que existam diferentes níveis de experiência entre os participantes, equipamentos e salas variadas utilizadas durante a mixagem, repare que os resultados são todos bons e relativamente semelhantes, principalmente nas versões que seguiram a forma original! No final, temos a música, só ela, e é isso que importa.

As grandes variações vieram de mudanças que, para mim, não fazem parte do que chamo de mixagem. Mixar, em última instância, é simplesmente ajustar volumes, efeitos, panorama, frequências.

Quando alteramos a forma, as sessões, quando adicionamos instrumentos ou retiramos outros, estamos produzindo! Aí está o grande poder (um tanto perigoso) do produtor musical, trabalhando junto com o cliente. O impacto da pré-produção será MUITO maior do que qualquer coisa feita durante a mixagem (desde que esta não prejudique as etapas anteriores).

Basta começarmos com uma boa música, otimizá-la antes de ir para o estúdio e captar da melhor maneira possível. O resto, é resto!

Enfim, há muito sobre o que refletir, se este é o seu objetivo.

Teremos mais experimentos como este, principalmente para os membros da futura Academia do Produtor Musical, um novo projeto que estou cultivando, em fase avançada. Tenho certeza que você gostará muito de fazer parte da nossa Academia, para realizar experimentos como este e muito mais, fique de olho em nossas comunicações!

Agradeço mais uma vez a todos os participantes, leitores, eleitores e sobretudo, à Banda Macaxeira, pela confiança, pela indicação e colaboração neste concurso.

(Ah, meu voto! Ainda não parei para tomar esta decisão, ainda temos alguns dias de voto popular e no encerramento voltarei com o meu, ok?)

abs
Dennis Zasnicoff