Mulve – Apocalipse ou Gênesis?

In blog by zasnicoff

mulve - pesadelo da (antiga) industria fonograficaEis que chega o fim dos tempos. O grande pesadelo da Indústria Fonográfica, previsto há tantos anos, aconteceu, por mais que ela o tenha ignorado.

MULVE é a personificação, a encarnação, a concretização do maior medo dos artistas, produtores, técnicos, gravadoras e distribuidoras. Dá para arriscar que será o tema da capa de várias revistas e cadernos nas próximas semanas.

Talvez não sobreviva sob este nome, assim como aconteceu com o semi-extinto Napster, fantasma do século passado (acredite, de 1999), primeiro demônio que veio à Terra assombrar as gravadoras.

O Napster sofreu mutações e deu origem a toda uma legião de monstros que, mais tarde, viriam a habitar nossas casas como Emule, Kazaa, Shareaza, Torrents e afins. Não tenhamos dúvidas: o Napster profetizou e o evento estava marcado para acontecer. Só não sabíamos exatamente quando.

É agora.


Através do Mulve, qualquer pessoa, de qualquer computador (podemos esperar versões para celulares e qualquer eletrônico possível e imaginável), sem precisar criar nenhuma conta e mantendo total anonimato, baixa virtualmente qualquer música existente no mundo. Imediatamente, sem complicações. Ponto final.

Uma pausa para digerir a frase acima…

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Mesmo que não soe tão impactante para você, existe algo em cada um de nós que ainda duvidava desta possibilidade. Há 20 anos atrás, somente um grande visionário afirmaria que isso viria a acontecer.

Neste ponto, não precisamos ser gênios para ir além e aceitar que, daqui a pouco tempo, toda e qualquer forma de arte digital, ou melhor, todo e qualquer conteúdo digital, será globalmente e gratuitamente acessado.

É fácil prever que o que está acontecendo hoje com a música se repetirá na Indústria Cinematográfica. Em algum lugar do futuro não tão distante, poderemos assistir, baixar, copiar ou transferir qualquer filme já produzido na História, em alta definição, do nosso dispositivo portátil, da TV, do carro, de onde quisermos.

Pense comigo: se na década de 80 existisse um aparelho milagroso que, sem qualquer custo, pudesse duplicar um álbum de vinil, gerando uma cópia idêntica, nós iríamos às lojas comprar discos? As lojas sobreviveriam? A polícia conseguiria fiscalizar toda e qualquer pessoa ou residência?

Este, aliás, é o mal da humanidade. Se todos passam por cima de mim e levam vantagem, por que não fazer o mesmo? A ética, ao lado da consciência, educação, cultura, fiscalização e punição, determina nossos comportamentos. Quando um crime já não traz prejuízos percebidos ou mensuráveis, deixa de ser um crime. Primeiramente, em nossas cabeças. Com o tempo, na comunidade e, eventualmente, na legislação.

Baixar um MP3, para muitas pessoas e culturas, não representa qualquer problema ético, psicológico, financeiro ou punitivo. Mesmo sendo um crime aos olhos da Lei, como acreditar que este comportamento possa mudar? Por que esperar que as pessoas tenham outra atitude, através de medidas preventivas? Como fiscalizar e punir milhões de pessoas? Como driblar hackers com tecnologias que são combatidas por novas tecnologias? É impossível.

Agora, finalmente, até os mais céticos deverão aceitar que não há mais volta. A cada dia, mais e mais pessoas irão baixar músicas, de graça, sem remorso, até o ponto onde isso será considerado uma prática totalmente natural e aceitável.

E isso vai acontecer independentemente das leis que existam ou do nível ético de um povo.


Eu continuo achando (e provavelmente nunca vou mudar de idéia) que o autor deve continuar sendo o primeiro e o único detentor dos direitos da sua obra, até que ele próprio decida o contrário.

Esta é uma verdade universal. No dia em que perdermos isso, não haverá mais qualquer senso de justiça no mundo.

Exemplifico. Se alguém gostar deste meu artigo e publicá-lo numa revista sem citar o meu nome, não vou ficar nada contente. Se, além disso, disser que o texto é de sua autoria, ficarei furioso. E se ainda, ganhar dinheiro através do meu texto, sem minha permissão, a briga vai ser feia, pode apostar!

Você não faria o mesmo?

É por isso que insisto: não acho que o caminho seja retirar os direitos do autor, incentivar o desrespeito ou seguir com a mentalidade “não é problema meu”. O que é certo é certo, mesmo que a sociedade não o considere assim.

Porém, a partir do momento em que eu não consigo fiscalizar, não tenho tempo, dinheiro e nem energia para processar os infratores, de que adianta eu ficar furioso? Sentar e esperar que a justiça seja feita e eu seja recompensado?

Um melhor caminho seria procurar anunciantes para meu blog. Assim eu teria um bom motivo para continuar escrevendo. Ou então, utilizar meus posts como um meio para vender outros produtos e serviços.

Minha aposta para um modelo saudável seria o autor (produtor, músico ou qualquer detentor de direitos) ceder alguns destes seus direitos. Só assim, ele poderá ter a tranquilidade para não se sentir injustiçado. E principalmente, retirar do consumidor o rótulo de infrator, transformando o que era crime em atividade legal.

Paz para todos e o artista poderá se dedicar a gerar rendas merecidas através de outros mecanismos, tendo combustível para continuar produzindo sua arte.


A grande questão, durante estes 20 anos de desespero, tem sido justamente esta: como criar um modelo de negócio sustentável, justo, recompensador e incentivador? Afinal, sejamos sinceros, o artista e todos os elos que agragam na cadeia produtiva precisam e merecem ser recompensados, não há como se discutir isso. A não ser, claro, que o própria artista ou instituição abra mão dos seus direitos. Uma decisão deles, nunca nossa.

1) Um dos caminhos para um modelo de negócio funcional é o produto físico. A revista, o livro, o quadro, a escultura, o CD. Numa outra esfera, os concertos, shows, aparições, entrevistas.

Os reclamões mais pessimistas diziam que hoje já não teriamos os jornais impressos. Que o livro estaria morto e o CD seria algo do passado. Nada disso aconteceu. E se é verdade que a venda de alguns produtos físicos diminuiu, sempre haverá um forte apelo para seu consumo, bem como aqueles dispostos a pagar por isso.

Você conhece alguém que divide a assinatura de um jornal com o vizinho, sendo que um deles lê das 6h00 às 7h00 e o outro das 7h00 às 8h00? Qual é o fã de carteirinha que não quer ter um CD do seu ídolo? Um livro do seu guru? O vinil é a mais nova febre musical na Europa.

2) Outro caminho, talvez o mais paupável, é a figura do próprio artista, a pessoa.

Enquanto não existir a clonagem humana, o artista continuará sendo único. Seus valores, imagem e promessas, sua arte e suas palavras. E daí, naturalmente, seu poder de merchandising para vender e ganhar com diversos produtos, não só com sua arte (mais uma vez, a arte como um simples meio de se conectar ao público).

Muitas bandas e artistas já entenderam este potencial e conseguem excelentes resultados usando a música como meio, e não como fim. Claro, é preciso ter boa música, boa produção musical e executiva, assim como gerenciamento de carreira. Isso nunca deixou de ser verdade (embora o conceito de “boa música” seja bastante contextual).

3) Um terceiro caminho, dentre os inúmeros imagináveis, é o serviço de assinatura. Compreender que o conceito de “poucos pagando muito” deve se converter em “muitos pagando pouco”.

Em última instância, retornaremos a “poucos pagando muito”, só que neste caso, poucos anunciantes. A grande diferença será quem paga a conta: o anunciante, ao invés do consumidor.

É verdade que o Mulve e as tecnologias similares que surgirão poderão nos entregar qualquer música (ou filme) que desejarmos. Mas um empreendedor visionário poderá criar uma interface que facilite e enriqueça ainda mais a experiência do usuário.

É o mesmo conceito do jormal impresso. Por que será que muita gente ainda compra jornal, se todas aquelas informações estão ou estarão na Internet em poucas horas? Porque o jormal facilita o acesso! Informações selecionadas, frescas, num mesmo lugar. Não perdemos tempo e nos acostumamos com a interface.

Se um site na Internet me permitir encontrar as músicas que eu quero, facilmente, todas em alta qualidade, sem ameaças virtuais, legalmente, com ficha técnica, informações sobre o artista, vídeo-clips etc. etc., e ainda me enviar presentes exclusivos a cada 3 meses por correio na minha casa, por apenas R$4,90 por mês, eu assino!

Vamos multiplicar 10 milhões de usuários no mundo, pagando US$3 por mês, e teremos uma renda de 30 milhões de dólares, o que é suficiente para financiar centenas de produções todos os meses, algumas bem grandes, outras tantas menores. É perfeitamente possível, usando a Internet e seu gigante mercado, criarmos e vendermos serviços baratos que possam sustentar inúmeros artistas, profissionais, discos, singles e carreiras.

Basta que alguns poucos gurus e celebridades da Internet façam marketing deste serviço no Twitter e em poucos dias, teremos os 10 milhões de assinantes. É necessário investir em marketing? Pagar celebridades e pesquisar mercados? Inovar e empreender? Claro! O que não se pode fazer é insistir nos modelos antigos de venda de músicas.


O “novo” é o “velho” adaptado.

A Indústria Fonográfica tradicional, durante a maior parte da sua existência, dependia de que alguns dos seus artistas contratados vendessem milhões de cópias para sustentar o negócio (e os demais artistas). Este era o modelo da época e viabilizava o financiamento de vários discos. Mas no final do dia, a gravadora precisava receber aqueles tantos milhões de dólares para ser sustentável.

Isso não vai mudar e este dinheiro precisa continuar vindo de algum lugar, uma vez que há empresas, marketing, distribuição, artistas, técnicos, músicos e produtores para se pagar. Uma diferença é que o modelo novo não depende da compra de um determinado disco ou música. A renda do serviço virtual é mais constante e previsível e o consumidor tem acesso ilimitado a um gigantesco catálogo de artistas e músicas.

No final do dia, aqueles artistas que desempenhavam melhor, ganhavam mais. Outros ficavam devendo dinheiro para a gravadora. Mais uma vez, no modelo novo, isto não vai mudar. O serviço da Internet será a “gravadora”, no sentido de financiar o artista e fazer a interface com o público.

Gravadoras nunca foram instituições de caridade e um serviço na Internet também não precisa ser. Cada artista, com seu potencial e poder de negociação, terá o seu próprio contrato com o serviço. Receberá um montante para realizar seu trabalho, decidindo quanto pagar a sua equipe de produção e quanto embolsar para si próprio. Poderá ou não ter participações adicionais de acordo com o número de downloads, votações no site (aí entra o modelo do negócio), mas essencialmente, tudo é muito parecido:

– O dinheiro continua sendo necessário, em proporções similares, para bancar a Indústria. No passado, tínhamos poucos pagando muito, agora serão muitos pagando pouco (e alguns anunciantes).

– O artista recebe um investimento que precisa ser retornado, como qualquer financiamento (o pagamento do artista para a “gravadora” poderá vir pelo número de assinantes baixando suas músicas, de rendas obtidas com shows, merchandising etc.)

Se eu fosse um artista, adoraria ser parceiro deste site. Por que não? Posso conseguir financiamento para minha produção, divulgar meu trabalho, medir resultados, re-negociar, tornar minha atividade lucrativa, agradar o público, contratar profissionais, e tudo isso sem me preocupar com downloads, fiscalização e pitataria.

Não me importa se outros milhões de pessoas conseguem minha música de graça, copiam e distribuem. O que interessa é que outros milhões de consumidores podem bancar meu trabalho, o serviço do site e diversos outros artistas. Os usuários não se importam em pagar US$3 por mês para acessar milhares de músicas e serviços interessantes. De quebra, ainda poderão ter um acesso mais exclusivo à minha obra, meus blogs e produtos físicos de edição limitada.

Como produtor, não hesitaria em ter um contrato com este mesmo serviço, para fornecer boas produções na quantidade e no ritmo estipulados. Havendo recompensas e legalidade, tudo fica mais fácil (modelo “produtor funcionário”, bastante comum nas gravadoras tradicionais). E mesmo sem uma relação direta com o serviço (modelo “produtor free-lancer”), o fato de existirem artistas financiados já anima bastante a perspectiva da nossa classe.

Se o artista vai ganhar muito ou pouco, só dependerá da sua arte, do seu gerenciamento de imagem, do seu desempenho, plenejamento, capacidades, de sua equipe de produção, marketing, networking e todos os termos corporativos que aprendemos no business. Nada mais justo. E funciona.

O mais incrível, para mim, é pensar que devemos voltar ao modelo de artistas/gravadoras que tínhamos no passado. A “gravadora virtual” poderá ter artistas exclusivos (lembre-se, “artistas” exclusivos e não “downloads” exclusivos) vinculados ao nome dela. Deverão aparecer “selos virtuais” expecializados em estilos musicais, com assinaturas próprias, campanhas de lançamento, e tudo mais que existia no passado!


Uma infinidade de modelos possíveis.

Ainda com o pé no chão, podemos esperar que alguns destes serviços de música na Internet sejam tão interessantes que os anunciantes passem a bancar todo o custo de manutenção, livrando o consumidor final da sua assinatura mensal. Neste ponto, não haverá motivo algum para qualquer pessoa no mundo que goste de música não ser usuária do serviço.

E aqui vai outro palpite: novos artistas no mercado podem ser transformados em “anunciantes”, pagando para divulgar sua música e aparecer ao lado dos grandes, para estes milhões de assinantes que visitam o site e recebem twitters e newsletters. É o jabá da novo mundo, que também me parece muito justo! Se você ainda não é famoso e quer aparecer, precisa investir, pagar por isso.

Ou seja, de um lado teríamos os ouvintes pagando uma assinatura mensal. Do outro, novos artistas anunciando mensalmente a sua prórpia pessoa, sua música. Conforme o público aprova os novos trabalhos, os artistas anunciantes ganham poder de negociação e passam para o time dos que não pagam mais para aparecer. Ou ainda, para o time dos que agora recebem para continuar no site. Este é o exercício mental que precisamos fazer, idéias e modelos não faltam!

O iTunes, como poucos, conseguiu se destacar na venda de música online, sendo lucrativo e atraindo inúmeros artistas e gravadoras. Minha previsão é que o mesmo ocorra neste modelo de “assinatura” e acesso ilimitado. Alguns poucos serviços vão sair na frente e conquistar o público.

Quanto ao iTunes, da forma que existe hoje, apostaria que vai desaperecer em poucos meses. Músicas e discos para download com preços? Já era. Se eles enxergam o rumo da Indústria (e acho que enxergam como ninguém), devemos ter um serviço de assinatura em pouco tempo, pelo menos para acessar livremente um catálogo reduzido de artistas e músicas. Com o tempo, acesso total, assinaturas mais baratas, serviços adicionais e finalmente, custo zero para o consumidor poder se entupir de música.

Talvez a maior sacada da década tenha sido o iPod. Não somente pela venda do dispositivo, mas por ele estar intimamente ligado ao iTunes. Se um iPOD melhorar ainda mais a experiência do consumidor no “novo” iTunes, é muito provável que o proprietário deste iPOD será assinante do iTunes e não de outro serviço de músicas.


Para nossa felicidade, ainda não podemos copiar pessoas.

Idéias, habilidades, intelecto e personalidade continuam sob nosso domínio. É muito remota a possibilidade de existir uma tecnologia que possa criar arte inovadora e interessante para o grande público. O Sol já terá engolido nosso planeta muito antes disso acontecer.

O Mulve nos faz refletir, e isso é muito bom.

Tentando resumir a minha visão do novo modelo de negócio: quase tudo voltará ao modelo antigo, por mais absurdo que isso possa parecer. Muda quem paga e quanto paga. Muda também o conceito de pagar pela música, que agora significa pagar por um serviço, onde o arquivo digital da música é o menos importante. Vai demorar um tempo para nos acostumarmos com isso…

Fim dos tempos? Sem dúvida! Para as mentalidades antigas, para os teimosos e preguiçosos. Já para os inovadores, absolutamente um novo tempo, que continuará a fazer da boa música algo desejável e recompensador.