Síndrome da Aquisição de Equipamentos

In blog by zasnicoff

Quero ser cozinheiro. Qual é a melhor panela?

Quero tirar um racha em Interlagos. Qual é o melhor carro?

Quero pintar minha casa. Qual é o melhor rolo de tinta?

Quero jogar futebol. Qual é a melhor chuteira?


gasVocê deve achar que as perguntas acima não fazem muito sentido, afinal, como jogar toda a responsabilidade do nosso desempenho em um equipamento? Onde fica nosso conhecimento, experiência, teoria e prática? Não valeram nada os anos de estudo, estágios, erros e acertos?

Quero gravar um som. Qual é o melhor microfone? E mesa de som? Interface de áudio? Software? Plugin?

Já esta pergunta acima parece ser bastante tolerável para muitos de nós. Por que seria diferente na produção musical?

Hoje eu não acho nada normal alguém se perguntar isso. É comum, mas não é normal. E reconheço que já sofri desta doença por muito tempo. Doença, aliás, que já tem nome nos EUA: Sïndrome de Aquisição de Equipamentos (SAE / GAS).

Se você é leitor regular deste blog, é bem provável que já tenha sofrido ou sofra desta síndrome. Acredite, ela não vale a pena e é passageira, então evite a perda de tempo e a ansiedade brutal, pulando para a próxima etapa!

Por que será que raramente nos perguntamos: “Como aprender a gravar? Cozinhar, pilotar, pintar e jogar futebol?”

Estas devem ser as perguntas e para elas, as respostas são bem mais simples e acessíveis, é só enxergarmos.

O brasileiro médio joga bem futebol. Será que tem as melhores chuteiras do mundo ou porque praticou todas as semanas de sua vida desde os 6 anos de idade?

Um pintor profissional realmente precisa de um pincel caríssimo ou pode fazer um excelente trabalho com qualquer rolo da loja da esquina?

Você consegue imaginar um piloto de Fórmula 1 fazer barbeiragem no trânsito, simplesmente porque seu carro de passeio não tem suspensão ativa? Não teria ele um excelente desempenho com qualquer carro, em qualquer pista de corrida?

E o segredo daquela chef respeitadíssimo – são suas panelas e facas? Ou simplesmente ele não tem nenhum segredo, apenas se dedicou à culinária por anos e anos, obsessivamente?

Para a grande maioria de nós, mortais, aí esta o segredo do sucesso: uma pequena parcela talento, uma grande parcela obsessão. E nada de parcela equipamento.


Estudar é chato, demora. “Quero aprender já! Exercícios? Disciplina? Paciência? Tô fora, quero resolver meu problema agora.”

Quem nunca pensou assim? E aí o caminho natural é nos isentarmos da responsabilidade de aprender e jogar a culpa em outra coisa.

“Não consigo gravar um som decente porque não tenho um microfone caro. Se comprasse aquela interface de áudio com certeza poderia gravar bem melhor no meu home studio.”

Mentira, não se engane! Se estudar é tão chato assim então talvez estejamos estudando o assunto errado.

Os grandes profissionais que admiramos e respeitamos estudaram MUITO. MUITO. E nunca pararam. Sentem prazer em aprender coisas novas, conseguem visualizar suas próprias limitações e podem traçar objetivos claros. Planejam, nem sempre são pacientes e provavelmente também já sofreram com muita ansiedade, mas se tornaram obsessivos quanto aos seus objetivos. Resultado? São os profissionais realizados, que respeitamos e admiramos.


Gosto de ler biografias de produtores musicais, histórias da Música e dos seus bastidores. É só juntar os relatos para identificar 3 fases claras na carreira de um produtor musical:

1) SAE. Nesta fase, o aspirante está extremamente empolgado. Tudo, absolutamente tudo da área é fascinante, é novidade. Ele sai a procura de receitas. Como gravar uma bateria? Como fazer meu CD soar comecial? Quais são os 300 plugins mais populares e onde posso baixá-los? Dá dinheiro trabalhar com isso? Como faço para ganhar uma grana boa nos próximos meses? Ele participa de fóruns, está desesperado para ter respostas. Viva a Internet! Esquece que a Internet está repleta de outros colegas na mesma situação, 90% dos internautas, para chutar baixo. Eles se encontram, um ajuda o outro, ou pelo menos tentam se ajudar. Enquanto isso o mundo lá fora continua. Aparecem os mitos. Num ambiente descontrolado e amador, os mitos viram verdades. Todo mundo tem sua própria opinião, forte, absoluta. Precisamos delas. Não se sente muito confortável para discutir assuntos complicados, afinal ainda não tem a formação necessária para isso. Naturalmente, se especializa em equipamentos, são mais palpáveis, interessantes, acessíveis. Não são acessíveis? Então com certeza aí está o seu problema. Se ao menos pudesse ter R$100.000 na conta, resolveria todos os seus problemas em poucos dias. Continua sua busca ansiosa por respostas que não existem. Em algum momento ele percebe que NÃO está fazendo muitos progressos, que não conseguiu absorver tanta informação e muio menos compreendê-las, transformá-las em conhecimento. Falta prática, falta tempo. E aí ele decide não ter tanta pressa, recomeçar, juntar conhecimentos passo a passo. Entra na próxima fase.

2) PÉ NO CHÃO. Com alguns equipamentos em mãos, muitos deles idênticos aos dos outros milhares de colegas na mesma situação (departamentos de marketing existem para isso), alguns totalmente desnecessários, que nunca foram utilizados e outros absolutamente poderosos e sub-utilizados (bem melhores do que aqueles usados em gravações antigas que ainda soam absolutamente interessantes e contempotâneas), ele se vê desanimado. Sem contar as milhares de horas gastas e os 500GB de disco, para nada. A renda que esperava não apareceu. Acabou gastando tempo e dinheiro em coisas pouco importantes. Descobriu que precisa tomar uma decisão séria: brincar de ser profissional ou se profissionalizar de fato. A segunda opção assusta, requer tempo, muito tempo, mais dinheiro, planejamento. Provavelmente significa vender quase todos os equipamentos, seus equipamentos tão importantes!!! Terá que dar um tempo aos fóruns. Precisa investir num curso, em livros, assumir que ainda não parendeu quase nada. Então faz alguns cursos e tenta absorver, sugar tudo o que pode. Se decidir seguir adiante, provavelmente já não terá a mesma empolgação. Mas não pode se esquecer que foi sua paixão por música, por áudio, que o levou até ali. Muitos não querem acreditar e voltam para a primeira fase. Chegam a passar anos e anos caminhando entre as duas fases, enquanto já poderiam estar bem avançados. Alguns poucos insistem no plano e começam, de fato, a compreender como funcionam as coisas no mundo da produção musical. Este sentimento é fantástico e impagável! Você pode ter “estudado” um assunto 30 vezes, mas só agora compreendeu de fato. Não há nada como o tempo, a paciência. Está pronto para a próxima fase.

3) CONSCIÊNCIA. O formando já tem plena consciência da sua capacidade e do ponto onde se encontra. Não tem vergonha de estar começando e sente-se orgulhoso de ter atravessado as etapas anteriores. A motivação volta! Já pode arriscar a prestar serviços na área. Começa a ter rendas mais estáveis. Sua capacidade de aprendizado se multiplicou, cada leitura, cada exercício e cada trabalho realizado são uma verdadeira aula. Está numa rampa ascendente, sem volta. De repente, os equipamentos já não representam mais o que eram. São apenas ferramentas. Eventualmente, poderá descobrir alguma tecnologia, software ou equipamento que dê uma pitada de diferenciação no seu trabalho, uma assinatura, a cereja do bolo. Mas tem plena consciência de que um equipamento nunca substituirá seus anos de estudo, seu conhecimento e prática. Sua ansiedade diminui e sente-se realizado. Olha ao redor e encontra vários colegas que já estão um passo a frente, não desanima, pelo contrário, tem certeza que chegará lá. Também vê diversos outros que ainda estão nas fases anteriores. Se ao menos pudesse explicar, transmitir sua vivência para eles. Difícil… As grandes licões são aprendidas na pele, como ele aprendeu.


Para todos nós, é essencial identificarmos em que fase estamos.

Não existe um tempo certo para cada uma, não existe uma idade certa para começar. Cada pessoa tem seu ritmo e suas possibilidades.

Mas todos passam por elas, é natural e nunca devemos nos envergonhar. Eu tinha todos os motivos para desanimar. Há cinco anos atrás, formado há mais de cinco, com bom emprego, eu estava saindo da primeira fase, sem saber o que viria adiante. Estava muito determinado, mas certamente inseguro.

Hoje, quando recebo um email perguntando sobre equipamentos, entendo claramente a situação pela qual o colega está passando. Costumo responder que infelizmente não tenho como opinar, e é verdade.

Antes de mais nada, quem disse que sou um especialista em equipamentos? Quem pode dizer que conhece 200 modelos de microfones, que já testou 20 interfaces diferentes e trabalhou em 5 mesas diferentes? Eu não. A visão que eu tenho de um equipamento pode não ser a mesma que outra pessoa tem. Podemos estar em fases diferentes, com objetivos diferentes.

E para complicar, todo e qualquer equipamento tem seu desempenho determinado pelo usuário, pelo ambiente acústico e pelos demais equipamentos da cadeia. Quase nunca podem ser julgados isoladamente. Se ainda considerarmos orçamento, preferências pessoais, traumas passados, mitos e marketing, uma recomendação seria no mínimo perigosa.

Equipamento bom e barato. É só isso que todos querem descobrir! Se eu conhecesse algo bom e barato que servisse para todos, certamente eu anunciaria no site. E se um dia encontrar, com certeza vou anunciar. Hoje, só anuncio meu curso, não é equipamento, custa menos que um microfone decente, é bom e barato (claro, na minha opinião, e na opinião dos ex-alunos).

Na minha newsletter, acabo passando algumas sugestões de equipamentos. Por muito tempo, pensei se seria correto fazer isso. Sabia que muita gente iria encarar aquilo como uma lista definitiva, que eu estaria supostamente defendendo algumas marcas e modelos e, por não falar de outras, menosprezando-as. Mesmo assim, decidi incluir alguns exemplos para que o leitor tivesse alguma idéia de preços, algumas referências para começar suas pesquisas, orientadas por faixa de orçamento.

Mas tenha certeza, não recomendo ou deixo de recomendar nenhum deles. Posso até gostar ou não de alguns modelos, mas simplesmente por experiência própria. O que é bom e funciona para mim pode não ser bom e nem funcionar para você. Não leve os equipamentos tão a sério. Sua carreira, sim, esta é importante.