A Importância do CD

In blog by zasnicoff

coleção de CDsPraticamente não existem mais CDs. O custo de duplicação é alto. A Internet é muito mais eficiente na divulgação e distribuição de músicas. Certo? Errado.

No mês passado, escrevi um pequeno artigo sobre uma banda chamada Medollic. Disse que o seu disco de estréia tinha grande margem dinâmica e que a própria banda usava esta característica da masterização como marketing positivo. Considerei uma iniciativa louvável, que poderia ser o indicador de que bandas e ouvintes estavam cansados do som chapado e sem vida dos discos lançados nos últimos 15 anos.

Por algum processo que exigiu no mínimo algum planejamento e dedicação por parte da banda ou sua equipe de pós-produção, o grupo australiano encontrou meu artigo na Internet, me agradeceu, e pediu um endereço para que pudessem me enviar um CD.

Semana passada recebi minha cópia, autografada, diretamente da Austrália. Definitivamente algo fora do comum. O som realmente é pulsante e se destaca no cenário, gostei de várias faixas do disco.

Mas, acima de tudo, virei fã. Por quê? Porque recebi um CD, um disco, um exemplar palpável e concreto, especialmente enviado para mim, de longe, sem eu nunca ter esperado por isso. Não fosse a existência de um CD, não vejo como esta banda poderia causar o mesmo impacto neste ouvinte, que está do outro lado do mundo.

É assim que conquistamos fãs.

Outro exemplo real. Há algumas semanas, terminei de mixar 12 músicas que gravei ao vivo, num bar em São Paulo. Era um show de um amigo, que cantou com seu filho, para um público seleto de conhecidos e familiares.  Não se trata de um lançamento, de músicas inéditas com pretensão comercial e nem mesmo da construção de um nome, uma marca, uma banda. Mas ainda assim, achei que o som ficou bem interessante e, se encaixando na proposta acústica original, sugeri que fizéssemos algumas cópias em CD.

Incialmente, meu amigo (e cliente) achou não ser necessário, afinal, eu já tinha criado uma página no site para o lançamento do disco. Amigos e familiares receberam o link e poderiam escutar as faixas, baixar o disco, ver fotos e vídeos, deixar comentários, ler a ficha técnica e tudo mais que acompanha o lançamento de um disco, real ou virtual.

Depois de alguns dias, ele mudou de idéia e me pediu para gravar 50 cópias, seus amigos perguntavam e pediam por um CD. Decidi fazer 100 e soube que hoje, alguns dias depois, eles já estão se esgotando.

Uma coisa é direcionar seus amigos, fãs, familiares ou quem quer que seja para um site. Outra coisa completamente diferente é entregar um CD em mãos.

Além das questões técnicas, que ainda existem, e dificultam que os visitantes façam download, audição, transferência e gravação das faixas, temos que nos lembrar do fator psicológico. O ouvinte que manuseia um CD original (comprado ou não), sente-se valorizado, especial, mais próximo do artista.

Um CD é uma prova concreta. Para o artista, a manifestação física do seu projeto. Para o ouvinte, a posse real das músicas, que podem ser escutadas em qualquer lugar, sem dificuldades. Ser um dos poucos que possui uma cópia oficial, principalmente quando se trata de uma “edição limitada”, é o desejo de todo fã.

É por essas e outras que ainda existem CDs. Menos do que no passado, sem dúvida. Mas ainda é um produto que se paga facilmente, ajuda a construir uma base de fãs, gerando diversas outras rendas.

Músicas que não viram um CD é como um filme que não vai para o cinema, já assumimos que não é dos melhores, e provavelmente estamos certos.

Quem paga pelo CD ou por sua produção é OUTRA história, o importante é que a produção profissional continua sendo necessária, requisitada e valorizada por artistas e ouvintes. E sempre será.

Milhares de artistas continuam lançando CDs. Na verdade, vários deles gastam MUITO mais na produção do vídeo-clip do que na produção do disco. Sabem que a produção do disco é fundamental e não representa um custo tão alto assim no projeto. O disco é o ponto de partida. Todo o planejamento de pós-produção depende dele: shows, imprensa, marketing viral, rádio, TV.

Sem o disco, o artista iniciante não é levado a sério. Já o artista famoso, pode até contar com uma renda extra pela venda de CDs. Mas nos dois casos, é necessário existir um disco, físico, real, ainda que as músicas também estejam disponíveis na Internet.

Você conhece alguma banda profissional, famosa ou não, que não lança discos? Se fazem isso, com certeza existe um forte motivo. Se o artista iniciante deseja chegar lá, se profissionalizar, ficar famoso ou pelo menos agradar amigos e divulgar seu som (como vimos acima), ele precisa de um disco.

Para quem ainda não produziu e simplesmente deseja divulgar uma demo, o CD também é importante.

Toda semana eu recebo dezenas de emails com links para músicas, páginas do MySpace, convites para shows. É claro que não consigo escutar todos e a maioria das mensagens acaba esquecida na caixa postal. Mas quando recebo um CD, dificilmente deixo de escutá-lo.

É mais fácil, posso ouvir no carro, em casa, no computador, em qualquer lugar. Inconscientemente, acredito se tratar de uma banda “séria”. Afinal, ao contrário da maioria, ela decidiu gravar um disco, investiu tempo, dedicação, dinheiro.

É este tipo de banda que merece ser ouvida, que provavelmente irá se destacar no cenário, que tem grandes chances de sucesso. É claro que o CD, neste caso, não precisa soar produzido nem comercial, afinal a banda está procurando um produtor justamente para isso. Mas veja que a existência de um CD ajuda neste contato, com produtores e gravadoras.

Tudo isso passa pela cabeça do produtor, do profissional da rádio, do ouvinte, do internauta, do representante da gravadora! Quem tem um disco se diferencia, este é um bom momento para se gravar discos. É hora de se destacar na multidão. Ninguém aguenta mais e nem tem tempo de visitar dezenas de páginas no MySpace a procura de talentos.

Não importa qual o momento, a tecnologia ou a moda, sempre existirão os fãs e suas necessidades de atenção e de produtos físicos. Sempre haverá uma multidão e um desejo de se destacar, conseguir ouvintes e eventuais patrocinadores.

Ainda se faz muito CD, mesmo que quem pague a conta não seja o ouvinte. A duplicação não tem custo alto e pode ser muito mais efetiva na divulgação do que qualquer email ou twitter. A Internet pode ajudar, mas antes de mais nada, uma banda séria precisa de uma boa produção, de músicas interessantes, de mais do que 2 ou 3 faixas. Do bom e velho disco. Grave o seu e faça cópias!