Reverb Natural ou Artifical?

In blog by zasnicoff

landscape_beachPergunta frequente no nosso Curso Online: “É melhor captar uma bateria com o reverb natural da sala ou gravar o instrumento seco, para depois usar plugins de reverb?”

Esta questão envolve diversos conceitos e, como quase tudo no áudio, não existe uma regra. Mas certamente há conceitos que podemos e devemos considerar para tomar uma decisão consciente.

Usaremos o exemplo da bateria, mas ele serve para qualquer instrumento acústico. Como gosto de usar analogias, vamos pensar numa fotografia.

Imagine que você precisa tirar uma foto de uma paisagem, na praia, capturando a areia, o mar, as sombras do coqueiro e as ondas estourando, barcos ao fundo, o verde do mar, o azul do céu, formas e cores do guarda-sol. Você prepara a câmera, escolhe a posição, distância, zoom, ângulo de tomada, talvez alguns ajustes no equipamento, espera o momento certo e… CLICK!

Como ficou o resultado? Estatisticamente, de tanto ter visto minhas próprias fotos e tantas outras de amigos, diria que provavelmente ela não ficou das melhores… Vez ou outra, nos deparamos com uma foto incrível, bela paisagem, composição perfeita, cores, iluminação, mal podemos acreditar que foi tirada por um amador. Mas você deve concordar comigo que isto é a excessão.

Todos nós podemos perceber que há fotos e FOTOS. O ditado “ver para crer” não existe à toa. Difícl é aceitar que “ouvir para crer” também vale.

Quando entramos no mundo profissional e nos deparamos com uma paisagem em um longa-metragem, numa capa de revista ou num portfolio de um fotógrafo, frequentemente a fotografia está impecável!

Como conseguiram chegar neste resultado?

Antes de mais nada, vamos assumir este profissional utilizou exatamente a mesma câmera (equipamento). Hoje em dia, muitas câmeras “amadoras”, com alguns poucos recursos, podem ser usadas profissionalmente. Dificilmente o mérito do resultado final se deve ao equipamento. Temos que acreditar nisso e parar de super-valorizar os equipamentos de uma vez por todas. Temos, sim, que valorizar o profissional, que soube COMO utilizar este equipamento ao seu favor. Foi ELE quem tomou as decisões e dominou a situação, não sendo escravo do fabricante ou do modelo da câmera.

Se entregarmos o MESMO equipamento para um profissional e para um amador, os resultados serão completamente diferentes. Podemos até dar os mesmos recursos, tempo e orçamento, e ainda assim serão notavelmente diferentes. Um equipamento top de linha talvez dê uma vantagem de 10% ao profissional, mas os outros 90% dependem dele, somente dele. Da mesma forma, este equipamento top na mão do amador não seria corretamente utilizado e poderia até dificultar a captação.

Enfim, para efeitos deste texto, vamos desconsiderar o peso dos equipamentos.

No áudio, vale a mesma coisa. É perfeitamente possível captarmos um belíssimo som de bateria com microfones simples, ordinários, relativamente baratos. Nuca vi (ouvi) um profissional ser prejudicado por não ter os melhores equipamentos em mãos. Por outro lado, já ouvi muitas gravações deficientes, realizadas com alguns dos microfones mais caros do mundo!

Então por que o resultado profissional é nitidamente melhor?

Não sou especialista em fotografia, mas posso arriscar algumas variáveis que influenciaram no resultado. O fotógrafo analisou o cenário: iluminação, sombras, reflexos, melhor hora do dia, movimento dos barcos, tonalidade da areia, posição do sol. Fez alguns estudos e testes. Experimentou posicionamentos e ângulos. Se necessário, usou iluminação adicional, refletores e difusores, por que não? De posse de todas as informações, deu o tiro certeiro.

Se por algum motivo descobriu que o cenário não era favorável para uma foto, planejou outras captações (também de qualidade), com iluminações e tons de cores semelhantes, para fazer uma montagem (mixagem). Talvez um céu de uma outra foto. Barcos ilustrados ou retirados de outro arquivo.

Afinal, não faz sentido tentar conseguir o impossível. Se a paisagem não é bonita, a foto também não ficará, simples como 2 e 2 são 4. O que importa é o resultado final e o fotógrafo tem plena consciência das limitações físicas do ambiente, extraindo o melhor dele e usando outros métodos de fotografia e montagem, quando necessários. Não aceita que tal método é melhor do que outro, não acredita em fórums públicos e mitos, e nem tem medo de tirar a foto perfeita quando a situação permite.

Ele faz escolhas conscientes, analisando o ambiente. E somente depois disso decide como produzirá sua imagem final. Deve balancear oportunidade, prazos, custos e, acima de tudo, qualidade do resultado final. E pode apostar que terá excelentes resultados, mesmo que sua câmera seja “comum”.

Agora podemos fazer o paralelo com a microfonação. Assumimos que temos um microfone (câmera) decente, ou então alguns microfones, que não precisam ser os mais caros, nem os mais famosos, e temos uma determinada situação para registrar: o som natural e pulsante de uma bateria.

Nosso objetivo é obter um resultado profissional, então vamos agir como tal. Começamos analisando o cenário. Luz, sombras, reflexos – são agora sons, timbres, reverberações, flutter echo, filtro-pente, barreiras acústicas, ressonâncias. Escutamos o ambiente. Escutamos o instrumento neste ambiente. Experimentamos posicionamentos para os microfones, distâncias, ângulos. O zoom é o nosso padrão cardióide!

A paisagem acústica permite uma captação satisfatória? Se não está agradável, então nunca ficará agradável na gravação! Primeiro a paisagem, depois a foto, esta é “regra” número um.

Se o som da bateria está simplesmente incrível na sala, então com relativa facilidade, poderemos captar o que estamos escutando. É só não errarmos na distância, ângulo, zoom, posicionamento. Com poucos testes, encontramos a foto perfeita. Pelo menos bem convincente.

A primeira conclusão é: começar com um bom som na sala e não pecar na captação. Ou seja, fazer testes, experimentar, treinar a audição, conhecer seus equipamentos, saber escutar, não ter medo de experimentar e tomar decisões. Se fizermos isso, teremos GRANDES chances de sucesso. Não adianta simplesmente ligar a câmera e sair clicando, sem planejamento, qualquer coisa, e esperar um bom resultado. Nem mesmo uma edição profunda poderá salvar uma foto mal feita, pergunte isso a qualquer fotógrafo!

Mas se o som não está agradável, não adianta captar a paisagem… O reverb indesejável da sala é como um reflexo na lente, que prejudicará todo o resultado e não poderá ser retirado da foto. Se as cores (frequências) não parecem corretas e equilibradas, teremos muito trabalho no “Photoshop” e, provavelmente, o resultado não será tão convincente / profissional.

Neste caso, é melhor pensarmos numa montagem. Ou seja, numa mixagem de trilhas, gravações de várias pistas. É aí que entra a microfonação multi-pista, de cada peça da bateria. Com este nível de zoom, conseguimos fotografar somente aquela peça, sem que a paisagem e seus problemas interfiram em cada uma das fotos da montagem, que tem seu próprio ângulo, distância e flash. Posteriormente, podemos juntar belas fotos individuais, em um cenário virtual (reverb artificial) e tentar recriar uma paisagem convincente. Mais trabalho? Com certeza, muito mais.

E não há problema algum em se delegar a mixagem para outro profisisonal. Aliás, vale comentar que no mundo imagem, sobretudo na produção de vídeo, é muito comum termos diferentes profissionais para diferentes funções: produtor, câmera, editor, sonoplasta, repórter. Na produção musical, queremos fazer tudo sozinhos! Por que isso?

A segunda conclusão é: não adianta tentar o impossível. Você precisa entregar um resultado e somente o cenário daquela situação lhe permitirá fazer a melhor escolha. Captar uma única foto, perfeita, é sempre ideal, mas nem sempre possível. Lembrando que, no áudio, a quantidade de trabalho e o risco de problemas aumentam exponencialmente com o número de microfones utilizados. Muitas vezes, no entanto, é nossa única opção.

Tudo depende do seu cenário! É ali que começa tudo.

Sala tratada, instrumento afinado, músico experiente, posicionamento correto? Experimente e arrisque a foto perfeita, sem medo! Apenas um ou dois mics podem dar conta do recado. Normalmente é assim que conseguimos os melhores resultados, em menos tempo, com menos trabalho. E ainda corremos o risco de captar uma foto simplesmente genial.

Mas se o cenário acústico não convence os seus ouvidos, também não irá convencer os microfones. Aí é melhor se afastar do conceito “paisagem” e planejar uma montagem. O resultado poderá se tornar satisfatório, provavelmente não será o melhor do mundo, e certamente dará mais trabalho. Mas é o que se pode fazer neste caso…

Tentar uma foto perfeita, de uma paisagem feia, é muito arriscado, para não dizer insano. Da mesma forma, fazer uma montagem quando o cenário já está perfeito, não faz o menor sentido.

Infelizmente muitos de nós aprendemos que uma bateria deve ser captada com 12 microfones, de modelos específicos, a distâncias pré-determinadas, passando por tal pré-amplificador e equalizador. Isso não existe, não acredite nisso. Estes mesmos gurus nada comentam sobre a sala, muito menos nos ensinam a parar para escutar o som do instrumento. É como fotografar sem olhar antes!

Todo áudio começa na fonte. Esqueça um pouco dos microfones, softwares, sample rates e interfaces de áudio. Não há nada como um bom músico, um instrumento afinado e uma sala adequada.

No final, tudo se resume a medir suas chances de sucesso, afinal você tem um objetivo, um prazo e um orçamento, certo? Não tem??? Então melhor parar tudo, definir isso antes e só depois escolher cenário, modelos e iluminação.

Boas fotos!