Você Escuta as Distorções?

In blog by zasnicoff

escutando as distorcoesCostumamos associar o termo “distorção” à saturação de equipamentos, tanto analógicos quanto digitais. Amplificadores, alto-falantes e computadores possuem um limite máximo de operação. Se o sinal tentar ultrapassar este limite, a onda será achatada. Escutamos o famoso som de “caixa estourada”.

No áudio digital, chamamos isso de clipping. Mas distorção é muito mais do que isso e pode ser audível mesmo que a forma de onda esteja linda, comportada, sem clips.

Por definição, distorção é qualquer tipo de alteração sofrida pelo original. Mesmo numa cadeia analógica, que seja de altíssima qualidade, o áudio gravado que escutamos sofre diversos tipos de distorções até chegar aos nossos ouvidos. Do momento original, onde o instrumento a ser captado gera o som, até o instante onde os alto-falantes reconstroem a onda acústica, o sinal passa por microfones, cabos, mídias temporárias e equipamentos diversos.

Cada um dos elos adiciona uma certa quantidade de distorção, mais ou menos perceptível, dependendo das condições de audição e da sensibilidade do ouvinte.

Sensibilidade do ouvinte – este é o foco deste artigo. Como anda nossa sensibilidade? A capacidade de reconhecer sons sujos e artificiais? Por que estamos perdendo esta habilidade? Vale a pena resgatá-la?


Tipos de Distorções

Ruídos também podem ser considerados um tipo de distorção, uma vez que alteram o conteúdo original do som. No áudio digital, existem outros elos, que também adicionam sua parcela de distorção – são os conversores A/D e D/A. No final do dia, todos os ruídos e artefatos se somam, “distorcendo” o que escutamos.

Algumas das distorções mais notáveis e tradicionais do áudio são: distorção harmônica (THD), piso de ruído, “truncagem” de bits, problemas acústicos das salas (gravação, mixagem e audição) e saturação (overdrive, overload). A saturação no áudio digital (clipping, ou simplesmente clip) é uma das mais notáveis, porque claramente altera o som de uma maneira desagradável.

Vale lembrar que alguns tipos de distorções (como a saturação da fita magnética) e os harmônicos gerados por válvulas, não são necessariamente ruins. Pelo contrário, podem ser desejáveis, se usados ao nosso favor, em algumas situações. Na verdade, como muitos sabem, podemos comprar pedais de guitarra que justamente têm a função de distorcer o som, ou seja, pagamos para ter um som mais sujo!

Distorções podem ser mais ou menos notáveis, dependem dos equipamentos e dos procedimentos utilizados, podendo variar entre o imperceptível e o inaceitável. Dois bons exemplos são: conversão para MP3 e Limitação de áudio digital.

Conversão para MP3 e formatos sililares

A conversão para MP3 tem um propósito muito claro: diminuir o tamanho do arquivo, para que possa ser armazenado e transmitido com maior facilidade, procurando minimizar as distorções durante o processo. Como na vida nada é de graça, se queremos diminuir o tamanho de um arquivo de 10MB para 1MB, naturalmente algo será perdido.

(Vale comentar que alguns formatos de compressão de áudio “sem perdas”, ou “lossless”, conseguem diminuir consideravelmente o tamanho do arquivo SEM NEHUMA DISTORÇÃO, desde que todas as outras variáveis sejam mantidas, como sample rate e resolução de bits. Estes formatos (notavelmente o FLAC) talvez não consigam diminuir o arquivo numa razão de 10:1, mas continuam em desenvolvimento e são fortes candidatos a uma maior aceitação no futuro).

O nível de distorção de um arquivo MP3 está diretamente relacionado à sua taxa de conversão, ou “bitrate”, que por sua vez determina o tamanho final do arquivo. Um MP3 de 96kbps possue tanta distorção que praticamente qualquer ouvinte, em qualquer condição de audição, poderá reparar. Já um MP3 de 320kbps consegue passar despercebido, como já aconteceu em diversos testes auditados com audiófilos de ‘ouvidos de ouro” e equipamentos de altíssima qualidade e transparência.

Para nós mortais, taxas em torno de 128kbps se tornaram um padrão e dificilmente alguém irá perceber ou reclamar das distorções. Praticamente obrigado a desenvolver minha audição (com muito prazer), eu e muitos colegas podemos perceber facilmente as distorções de um MP3 em 128kbps. Não se trata de um desafio, nem de competição. Mas simmplesmente uma constatação, inevitável. A música não soa tão bem e nosso cérebro, acostumado com boas gravações, automaticamente rejeita a sonoridade inferior.

Nestes casos, o grande indicador de distorções me parece ser o som da caixa da bateria. Em algunmas situações, esta distorção é o menor dos problemas. Uma música que foi extremamente processada e distorcida pela emissora de rádio, escutada dentro do carro, com alto ruído ambiente, em caixas acústicas nada ideais, terá outros tipos de distorções mais notáveis. Enfim, cada nível de qualidade tem um formato, mercado, momento, prós e contras.

As recentes pesquisas são preocupantes. Muitos jovens – estes mesmos, que estão começando a consumir músicas, a gravar canções e serão responsáveis pela produção musical e pelo comportamento de mercado nas próximas décadas – PREFEREM o som distorcido de um MP3. O dado em si não é chocante, porque tudo é uma questão de referências, costumes, criação, educação musical. Não podemos culpá-los, cresceram escutando MP3 distorcidos e esta é a referência que possuem.

Quando os primeiros fonógrafos (que hoje seriam considerados de PÉSSIMA qualidade) reproduziam uma música atrás das cortinas, a platéia não conseguia distinguir se o som era ao vivo ou gravado. Ok, nossos bisavós não tinham experimentado gravações antes disso, e provavelmente nem tinham o hábito de escutar tanta música como nós fazemos hoje em dia, mas o exemplo mostra que tudo se resume às referências.

O mais preocupante é constatar que estamos num caminho descendente. A qualidade do áudio, que tanto aumentou nas últimas décadas, agora está caindo. As possibildiades de portabilidade, velocidade, transmissão, disponibilidade, variedade, cópias e compartilhamento pressionaram a qualidade do som para baixo. Ganhamos diversas facilidades, mas perdemos em qualidade. E para piorar, nos acostumamos com isso.

A Limitação (compressão) do áudio

O processo de LIMITAÇÃO é um dos principais recursos para se aumentar o “volume” ou “pressão” de uma música. O desejo de se gravar em alto volume começou há muito tempo, por razões que variam de legítimas a insanas. Mas foi há cerca de 20 anos que o mundo digital entrou para a “Guerra de Volumes“, já comentada em outros artigos deste blog.

Existe uma pressão no mercado para que a música digital, gravada seja ALTA. Como se o volume no qual o ouvinte escutará a música fosse determinado pelo CD, ou pelo arquivo MP3. Esqueceram-se de que o ouvinte SEMPRE tem a opção de abaixar ou aumentar o volume, de acordo com sua preferência! Motivos à parte, muitos acreditam que a gravação digital precisa ter um volume artificalmente alto, para soar profissional ou  poder competir no mercado.

No áudio digital, se tentarmos gravar um CD ou um MP3 com muito volume, necessariamente haverá distorções. A partir de um certo ponto, elas se tornam BEM audíveis. Uma das distorções mais frequentes é o clipping digital, bastante desagradável, que ocorre quando as ondas são literalmente achatadas. Um simples controle de volume dentro do software de gravação pode causar clipping. Limitadores e Maximizadores de volume também costumam gerar clips quando abusados.

O procedimento mais usual para se ganhar volume é utilizar um equipamento chamado LIMITADOR (ou limiter), que procura aumentar o nível do áudio, sem causar clipping. Dependendo da música, do limiter e do operador, as distorções geradas pelo limiter poderão ou não ser audíveis. Se ele causar clipping, é praticamente certo que escutaremos a “sujeira” (pelo menos deveríamos escutar, mas como vimos, estamos perdendo as referências). Se o limiter não causar clipping, ainda assim estará alterando a forma de onda original e isso significa distorção. De um jeito ou de outro, se queremos passar de um determinado volume, distorções acontecerão. Podem ser mais ou menos audíveis e é importante reforçar que nem sempre precisamos de clipping para que o som soe distorcido.

Neste artigo, vamos escutar e comparar visualmente exemplos de áudio digital em diversos níveis de volume. Cabe a você fazer os julgamentos. Vale a pena aumentar o volume de uma gravação ao custo de mais distorções? Qual é o nível de distorção aceitável? Como os CDs “quentes” conseguem agradar os ouvintes?

Nosso áudio-teste

Para o nosso teste, preparei vários arquivos de um mesmo trecho (1 minuto) do início da música “Babylon Sisters”, da banda Steely Dan. Esta faixa (como várias outras da banda) é uma das minhas referências de som limpo e natural. Para mim, o áudio original do CD possui um volume bastante adequado, sem qualquer tipo de distorção subjetiva. Definitivamente não soa fraco e nem pede mais volume. Podemos dizer que o produtor e a equipe técnica conseguiram atingir um ótimo compromisso entre volume e qualidade. O som é incrível!

Se esta produção ocorrese nos dias atuais, provavelmente haveria uma pressão da gravadora para que o áudio fosse mais alto e, certamente, existiriam perdas. Neste teste, vamos simular o que aconteceria se o CD fosse produzido com mais volume. Escutaremos ganhos de volumes graduais, decidiremos se as distorções são audíveis e qual o impacto que isso teria no ouvinte final.

Lembrando: se o ouvinte não conhecesse a versão original, talvez aceitasse as versões distorcidas sem restrições. Mas no nosso exemplo, teremos sempre a referência original para podermos comparar.

O áudio original

Antes de mais nada, aqui está o trecho original (convertido cuidadosamente para MP3, a ponto de não gerar distorções que pudessem atrapalhar nossos julgamentos), que continua soando muito bem em MP3! Repare nos detalhes, escute o trecho inteiro algumas vezes, para memorizar o som original. Veja abaixo a forma de onda, que sugere dinâmica e a naturalidade na música, com picos e transientes notáveis.

[audio:http://academiadoprodutormusical.com/wp-content/uploads/BabylonSisters_ORIG_NORM_menos1dBFS.mp3]

Áudio Original (normalizado para -1dBFS para evitar clipping durante a conversão para MP3)

(Apesar do áudio original não atingir 0dBFS (que é uma prática recomendada para se evitar um outro tipo de distorção que pode ocorrer no CD-player do usuário), normalizei o trecho deste exemplo para -1dBFS, antes da conversão MP3, de modo a evitar o surgimento de clippings. Frequentemente, a conversão para MP3 cria overloads quando o áudio está próximo de 0dBFS. O trecho convertido para MP3 manteve os picos em -1dBFS, com um volume médio (RMS) de -16.5dBFS).

O áudio original, tem portanto, 15.5dB de margem dinâmica (distância entre o volume médio e os picos máximos), que é o nosso principal indicador do nível de naturalidade/distorção.

Todas as versões seguintes partiram da mesma fonte, evitando erros cumulativos de conversões sucessivas para MP3. Por exemplo, na versão +2dB, configurei o limiter para que o novo valor RMS atingisse 2dB acima do original, mantendo o mesmo teto de -1dBFS para os picos. Assim, garanti que a margem dinâmica diminuísse na mesma proporção (2dB). Na sequência, o áudio foi convertido para MP3. Segui os mesmos passos para cada versão, sempre partindo do mesmo arquivo WAV original, normalizado em -1dBFS.

Para os puristas: a partir da segunda versão (+4dB), os picos começaram a atingir 0dBFS no arquivo MP3, embora estivessem normalizados em -1dBFS antes da conversão. Conforme vimos, a conversão para MP3 pode criar valores mais altos do que os originais, mas isso não significa que a margem dinâmica aumentou. São apenas erros decorrentes do processo de conversão. É, sim, uma distorção adicional, porém não audível em comparação com aquelas geradas pela perda de margem dinâmica. Tomei o cuidado de verificar todos os valores em 0dBFS para me certificar de que não ocorreram clips. Caso o arquivo original tivesse picos em 0dBFS, provavelmente as versões em MP3 teriam clippings bem audíveis, o que atrapalharia nossas comparações.

As versões comprimidas (mais altas)

Veja como ficaram as formas de onda das versões candidatas ao CDs super-quente, versão 2010. Foram criadas 6 versões, cada uma 2dB mais alta que a anterior: +2, +4, +6, +8, +10 e +12dB. Em outras palavras, o volume médio de cada versão atingiu, respectivamente, -14.5; -12.5; -10.5; -8.5; -6.5 e -5dBFS RMS, enquanto as margens dinâmicas foram reduzidas para 13.5; 11.5; 9.5; 7.5; 5.5 e 4dB. Para efeitos de comparação, um instrumento, ou uma apresentação acústica, costuma ter uma margem em torno de 20dB.

(A última versão não atingiu 3.5 de margem porque o limiter usado se recusou a gerar este resultado dentro de suas capacidades e padrão de qualidade. O controle de soft-clip estava configurado para não gerar clips. Muitos limiters podem comprimir além disso e chegar nesta faixa estreita de margem, mas certamente às custas de muita distorção e clipping).

CDs muito altos possuem uma margem em torno de 6dB (picos em 0dB e volume RMS em -6dBFS) e portanto, com nossos exemplos, conseguiremos simular praticamente toda a faixa de volumes existente no mercado.

Na figura, o “volume visual” (ou margem) de cada versão está bem claro. Repare como cada uma é mais achatada do que a anterior, indicando que a música possui um volume maior e, consequentemente, menores variações entre as partes baixas e as partes altas. É o fator “salsicha” que pode transformar uma onda de áudio em um aglomerado compacto, que praticamente atinge o volume máximo na música inteira.

Os 6 trechos mais altos

Repqre na versão mais quente (inferior direita) como a parte final da música, ligeiramente mais intensa, aparece com um volume constante, sem qualquer dinâmica.

Embora algumas versões pareçam visualmente bem comportadas, veremos que as distorções podem ser audíveis. Por outro lado, o achatamento não significa que houve necessariamente clipping após o limitador, algo que também constataremos.

Preparação para o teste de audição

Escutaremos cada uma das 6 versões que tiveram seus volumes e margens alterados. Naturalmente, cada uma delas soará mais alta do que a anterior (2dB mais alta). A pisco-acústica nos diz que, num primeiro momento, tendemos a preferir os sons mais altos. Quando fazemos comparações como esta, os ouvidos parecem gostar do áudio mais alto. É claro que, a partir de um ponto, as distorções ficam muito notáveis e já não apreciamos o aumento de volume.

É bem provável que de imediato, eu, você e muitos outros ouvintes, possamos concluir  que uma versão soa melhor do que a anterior, já que soa mais alta. Porém, se isto fosse verdade, o CD original teria sido gravado em um volume mais alto, pode ter certeza!

O volume original do disco, mais baixo do que todas as versões, foi assim escolhido porque no médio e no longo prazo, um som alto e distorcido tende a incomodar. Inconscientemente durante a audição, o ouvinte abaixa o volume, sente fadiga auditiva, não percebe todos os detalhes, se cansa e pode até se irritar. É claro que nunca desejamos esta reação no ouvinte (embora algumas bandas e produtores pareçam fazer questão).

De uma maneira geral, o áudio precisa soar dinâmico e limpo para que o ouvinte aprecie a música inteira, do início ao fim, e continue escutando o disco. Ele regulará o volume conforme sua preferência e não sentirá necessidade de alterá-lo durante a audição.

(NOTA: Para reforçar o conceito, repare que a diminuição da margem dinâmica não é o objetivo de um CD mais alto, é apenas consequência do aumento de volume. CDs mais altos possuem menos dinâmica para que possam soar mais altos, e não porque pretendem perder margem. Este efeito colateral é inevitável. Se 0dBFS é o limite absoluto no áudio digital, para que um áudio mais intenso caiba na mesma faixa, só há duas opções: clipar (cortar, decepar) os picos que passariam de 0dBFS ou diminuir o volume destes mesmos picos, que é justamente a função de um limiter).

Podemos assumir que, de um jeito ou de outro, os picos sempre atingem 0dBFS (ou um valor muito próximo disso). Assim, cada 1dB de aumento de volume significa automaticamente 1dB de redução de volume dos picos (perda de margem).  Mesmo não havendo clips, o áudio será alterado e isso sempre significa uma coisa: distorção.

Audição das versões (a comparação é mais evidente a partir dos 40s, ouça todos os trechos do início ao fim)


Original (Margem Dinâmica = 15.5dB)

[audio:http://academiadoprodutormusical.com/wp-content/uploads/BabylonSisters_ORIG_NORM_menos1dBFS.mp3]

Versão +2dB (Margem Dinâmica = 13.5dB = apropriada para a maioria dos estilos musicais, relativamente pequena para outros, onde as distorções podem se manisfestar. O CD possui um volume considerado normal, aceitável)

[audio:http://academiadoprodutormusical.com/wp-content/uploads/BabylonSisters_mais2dB.mp3]

Versão +4dB (Margem Dinâmica = 11.5dB = apopriada para músicas pop, na maioria das situações)

[audio:http://academiadoprodutormusical.com/wp-content/uploads/BabylonSisters_mais4dB.mp3]

Versão +6dB (Margem Dinâmica = 9.5dB = limite mínimo recomendado para músicas comerciais, margens nesta faixa, ou menores, apresentam um alto nível de distorção, mesmo que muitas pessoas não percebam. O CD soa definitivamente alto, o que parece agradar um perfil de ouvintes. Outros ouvintes acostumados com CDs – ou MP3 – mais baixos e dinâmicos se irritam porque precisam abaixar o volume frequentemente)

[audio:http://academiadoprodutormusical.com/wp-content/uploads/BabylonSisters_mais6dB.mp3]

Versão +8dB (Margem Dinâmica = 7.5dB = muito comprimida, perigosa, não existe uma justificativa racional para este valor. Pode ser útil em casos especiais, que requerem um volume praticamente constante, como “música de elevador”. Qualquer produtor que preze o áudio e respeite a música não deveria chegar perto deste valor. Muitas vezes, a pressão vem da gravadora ou do cliente. Outras vezes, trata-se de um erro grotesco de masterização)

[audio:http://academiadoprodutormusical.com/wp-content/uploads/BabylonSisters_mais8dB.mp3]

+10dB (Margem Dinâmica = 5.5dB = insanamente alto e comprimido. O último CD do Metallica (Death Magnetic) está praticamente o tempo todo neste volume e recebeu uma quantidade de reclamações sem precedentes na história, inclusive dos ouvintes que gostam de sons altos e distorcidos (veja este artigo). Mesmo os estilo menos dinâmicos, como o heavy metal, precisam de margens maiores para não soarem chapados, sem profundidade, sujos, enjoativos. Algumas rádios processam o áudio para que ele chegue com esta margem ao ouvinte. Porém no carro, em meio a altos ruídos, somos mais tolerantes às distorções e até apreciamos um volume mais alto e constante)

[audio:http://academiadoprodutormusical.com/wp-content/uploads/BabylonSisters_mais10dB.mp3]

+11.5dB (Margem Dinâmica = 4dB = os trechos mais altos dos CDs mais quentes e desagradáveis do mercado passam deste valor, sendo praticamente uma ofensa ao ouvinte, que precisará abaixar bastante o volume e conviver com um alto nível de distorção)

[audio:http://academiadoprodutormusical.com/wp-content/uploads/BabylonSisters_mais12dB.mp3]

O teste está ficando interessante! Lembre-se, as distorções não precisam soar como clipping (som de “caixa estourada”, áspero) para serem notáveis. Repare no som como um todo, nuances, dinâmica, transientes, naturalidade, PULSAÇÃO!

Talvez você tenha percebido as perdas crescentes a cada versão, sobretudo se escutou os trechos inteiros. Pode ser que tenha regulado o volume entre uma versão e outra, e também pode ser que algumas delas não lhe pareceram negativas.

Cada pessoa tem suas próprias referências internas, um certo nível de treinamento auditivo e um equipamento de reprodução, que podem fazer toda a diferença. Na média, infelizmente, eu diria que a grande maioria do público não se incomodaria até a versão +8.

Entretanto, muitas pessoas perceberiam as vantagens da versão original, se fizessem comparações no MESMO VOLUME. É justamente por isso que preparei nosso próximo teste

Para que nossos julgamentos sejam mais corretos, devemos comparar versões sempre no mesmo volume. Esta é maior armadilha do produtor musical, do engenheiro de mixagem / masterização, e do ouvinte. Primeiro, devemos regular as duas versões que serão comparadas para um mesmo volume confortável. Depois, escutá-las e fazer uma escolha.

Preparação para a segunda audição

Desta vez, regule o volume durante a primeira audição não mude mais, até que escute todas as versões. Eu normalizei todos os arquivos para o mesmo nível (-16.5dB RMS), assim como faria um ouvinte no seu próprio equipamento, através do controle de volume. Aí voltamos no paradoxo inicial: se o ouvinte irá regular o volume, qual a vantagem de aumentar o nível do áudio gravado no CD? (Esta questão é muito polêmica, mas os motivos não convencem, sobretudo com a atual tecnologia de gravação e reprodução).

Já que todas estão no mesmo nível de gravação, tocarão com a mesma intensidade, desde que o controle de volume do seu computador não seja alterado. A única diferença entre elas será a margem dinâmica (níveis dos picos) e, consequentemente, as distorções decorrentes desta compressão (não confundir compressão de dinâmica com compressão MP3).

Versões normaliadas para o mesmo RMS, com compressão crescente

Audição das versões, no mesmo volume


Original (Sem compressão, volume em -16.5dBFS RMS)

[audio:http://academiadoprodutormusical.com/wp-content/uploads/BabylonSisters_ORIG_NORM_menos1dBFS.mp3]

Versão +2dB (2dB de compressão, volume em -16.5dBFS RMS)

[audio:http://academiadoprodutormusical.com/wp-content/uploads/BabylonSisters_mais2dB_NORM.mp3]

Versão +4dB (4dB de compressão, volume em -16.5dBFS RMS)

[audio:http://academiadoprodutormusical.com/wp-content/uploads/BabylonSisters_mais4dB_NORM.mp3]

Versão +6dB (6dB de compressão, volume em -16.5dBFS RMS)

[audio:http://academiadoprodutormusical.com/wp-content/uploads/BabylonSisters_mais6dB_NORM.mp3]

Versão +8dB (8dB de compressão, volume em -16.5dBFS RMS)

[audio:http://academiadoprodutormusical.com/wp-content/uploads/BabylonSisters_mais8dB_NORM.mp3]

Versão +10dB (10dB de compressão, volume em -16.5dBFS RMS)

[audio:http://academiadoprodutormusical.com/wp-content/uploads/BabylonSisters_mais10dB_NORM.mp3]

Versão +11.5dB (11.5dB de compressão, volume em -16.5dBFS RMS)

[audio:http://academiadoprodutormusical.com/wp-content/uploads/BabylonSisters_mais12dB_NORM.mp3]

Ficou mais fácil comparar? Aposto que sim! Qual é o seu candidato à remasterização do nosso CD fictício?

Na última versão, a “sujeira” decorrente das distorções deve ter sido bem audível. Eu garanto que não existem clips no áudio. Usei um limitador de alta qualidade, desliguei a opção de clippings e configurei um rápido tempo de ataque, com múltiplas passagens em modo offline. As formas de onda foram verificadas após cada processamento.

Na figura abaixo, veja um dos picos em detalhe. Todas as versões são visualmente parecidas e não contém clipping, embora soem bem diferentes.

ZOOM de todas as versões em um dos picos

A sujeira que você escutou na última versão decorre da alteração da forma de onda, sobretudo nas frequências graves. O som resultante não está saturado, ele simplesmente é diferente do original e foi criado artificialmente, além dos limites aceitáveis pelos nossos ouvidos. Olhando a onda, não conseguimos prever o que escutaremos, todas parecem muito similares entre si.

E as distorções das outras versões? Elas variam desde uma leve perda de dinâmica (que pode representar um menor interesse do ouvinte a longo prazo), até artefatos incômodos e bem notáveis, passando por alterações de timbre, reforço de agudos, exagero de reverberação e nuances, perda de profundidade, ausência de punch/impacto.

Na figura abaixo, da esquerda para a direita, temos o áudio original, uma das versões mais altas (comprimida por limitador) e uma versão alternativa (não utilizada nos testes) que também possui volume mais alto, porém através de um ganho simples. Aumentar o volume por força bruta, usando um fader no software, resulta em clipping. É o que ocorreu na onda da direita, que está visualmente achatada. Este tipo de distorção é bem audível e é por isso que usamos limitadores bem regulados, ao invés de faders.

Lembre-se: nem sempre precisamos clipar a onda para ter distorções fortes! A onda do meio mostra um dos picos mais altos da música, sem qualquer distorção visual, e mesmo assim ela soa distorcida.

Limitação versus Ganho Simples

Sei que muitos leitores são viciados em limiters e maximizadores de volume. Nunca se esqueça que, quando cruzamos um determinado limiar, temos perdas. Para dificultar ainda mais, muitas das distorções não podem ser visualizadas, somente escutadas.

Se você analisar a forma de uma onda da mixagem e não encontrar nenhum clip, isto não significa que ela está livre de distorções. Aliás, procure evitar limiters ou excessos de volume durante a mixagem, isto deve ser feito na fase de masterização.

Muitos engenheiros utilizam analisadores de clips e medidores de overloads para julgar as distorções. Não caia nesta armadilha! Se pegarmos, por exemplo, a versão +11.5 e normalizarmos o áudio para -1dBFS, os medidores do software não indicarão problema algum, não acenderão luzes vermelhas e nenhum sample em 0dB será acusado. Nem por isso o áudio deixa de estar completamente distorcido.

Aliás, este é um procedimento usado em algumas masterizações duvidosas. O engenheiro acaba normalizando o áudio (às vezes sem querer) para um valor abaixo de 0dBFS e acredita ter se livrado das distorções (escutamos acima que isto não é verdade). Ou então, faz isso conscientemente, esperando anular as distorções. Alguns chegam ao ponto de normalizar logo abaixo de 0dBFS, para que a planta de duplicação não rejeite o CD.

Uma coisa é a margem de segurança para evitar distorções no CD-player do ouvinte. Normalizar os picos 0.3dB abaixo de 0dBFS já ajuda neste caso. Outra coisa é a margem de segurança para futuras conversões para MP3, que certamente ocorrerão! Esta valor pode chegar a 5dB, dependendo da música e do conversor MP3.

No final das contas, o áudio precisa estar livre de distorções fortes (independentemente do valor dos picos) e quem determina isso é a margem dinâmica (assumindo que o áudio foi bem gravado e mixado). Depois que todas as margens estão definidas, o volume máximo será automaticamente determinado. O resto é com o ouvinte!

Se você trabalha com áudio, procure desenvolver o seu senso de audição, através de exercícios como este nosso áudio-teste.. Analise CDs comerciais e lembre-se de fazer comparações no mesmo volume. Não confie nos medidores e acima de tudo, determine um objetivo para sua música desde o começo da produção. Limpeza? Dinâmica? Volume? Agradar o cliente? Agradar o ouvinte? Que tipo de ouvinte? Em que mídia será veiculada? Que níveis de distorção são aceitáveis? Clipar, nem pensar!

Abaixo à Guerra dos Volumes! E até a próxima.