Reverb de Convolução

In blog by zasnicoff

Campo ReverberanteA onda sonora emitida pelo instrumento se espalha no ambiente. Primeiro, chega diretamente ao ouvinte. Mas segue seu caminho, para várias direções, e atinge superfícies. Reflete. Para outras direções. Passa de novo pelo ouvinte. Continua adiante, reflete em outras superfícies, e em outras mais, atinge o ouvinte.

No mesmo instante, outras centenas ou milhares de reflexões estão ocorrendo. Algumas acabaram de passar pelo ouvinte, outras chegarão em frações de segundos.

Num curto espaço de tempo, o campo sonoro dentro da sala estará um verdadeiro caos. Milhares de ondas sonoras, de diferentes intensidades e fases, seguem o som original da fonte sonora, criando o que chamamos de REVERBERAÇÃO.

Colocando a “beleza” desta reverberação de lado (que é extremamente subjetiva, depende do ouvinte, do instrumento, andamento, estilo musical, contexto, entre outros), o fato é que o som final (resultante do som direto, das reflexões primárias, fortes e espaçadas e do campo reverberante que soa como uma cauda), depende totalmente da posição da fonte sonora, da posição do ouvinte (ou do microfone), da geometria da sala, de seu tamanho e dos revestimentos existentes.

Cada sala tem o seu próprio tipo de reverb. Para efeitos deste texto (mesmo porque cada literatura trata o assunto de uma maneira diferente), chamaremos de REVERB todo o som que segue o original. Portanto, o conjunto de reflexões primárias e tardias, que dependem das características acústicas da sala.

Em outras palavras, podemos dizer que toda e qualquer sala possui uma “impressão digital”, única, característica, que determina como o som se comportará dentro dela. Algumas impressões digitais são bem conhecidas do público em geral. É provável que a grande maioria das pessoas identifique facilmente se um som foi gravado ou está sendo gerado dentro de um ginásio de esportes, ou de uma catedral. Cavernas, banheiros, salas de concerto, e por aí vai. E ainda assim, cada banheiro tem o seu próprio “som”.

(Certa vez, em viagem à Nova Iorque, não pude deixar de reparar no som incrível de uma sirene do carro de bombeiros no meio da cidade, cercado por arranha-céus. Aí está um som bastante característico, como se Nova Iorque tivesse o seu próprio reverb inigualável.)

Nosso cérebro tem uma capacidade incrível de memorizar estas informações, sem que precisemos nos esforçar. Desde criança, aprendemos a identificar os sons dos ambientes. Cada experiência auditiva nova é mais uma memória armazenada no nosso banco de dados de impressões digitais.

Podemos julgar com bastante facilidade se um determinado som é “real” ou “artificial”. Se uma pessoa está próxima ou distante, se a sala é grande ou pequena, reflexiva ou abafada, se uma gravação soa natural ou dá a impressão de que cada instrumento está em uma sala diferente. Talvez não possamos identificar detalhes, mas certamente conseguimos julgar se a reverb é ou não convincente.


Reverb nas Gravações

No mundo ideal, quando queremos que um determinado instrumento, música ou banda tenha uma sonoridade específica, simplesmente gravamos o som naquele ambiente. Tudo seria muito fácil, se não fossem os problemas.

Pra começar, nem sempre temos acesso ao ambiente desejado. Se por algum motivo eu precisar se uma sirene de bombeiros em NY, naturalmente não vou viajar até lá e esperar com meu gravador até que algum carro de bombeiros passe por mim, torcendo para que nenhum outro ruído aconteça ao mesmo tempo.

Outro grande problema é o tele-transporte do ouvinte até o local da ação. Uma coisa é estar presente no local e escutar o reverb com os dois ouvidos. Outra coisa é gravar este reverb (1 microfone? 2 microfones? A que distância?) e esperar que o ouvinte tenha a mesma sensação, como se estivesse presente. Como ele irá escutar? Com fones? Através de caixas? Em que ambiente? No local real, o som chega por todos os lados. Com caixas acústicas, o som vem pela frente…

Como você já percebeu, capturar um reverb natural nas gravações não é tarefa fácil e só teremos uma boa chance de sucesso quando a técnica de microfonação é MUITO precisa e testada, e quando a sala, de fato, apresenta um reverb desejável, exatamente como queremos em nossa música.

No mundo real, a grande maioria das gravações ocorre em um estúdio, uma vez que ali estão os equipamentos, instrumentos, profissionais, isolamento etc. Eventualmente o estúdio, ou a sala de gravação, pode não ter um reverb muito interessante, pelo menos para alguns instrumentos. E depois que o reverb está gravado, não há como retirá-lo! A solução é usarmos estúdios relativamente “secos”, com pouca reverberação, e posteriormente adicionarmos reverb artificial durante a mixagem.

Aí entram os processad

ores de reverb. Fazer o som soar como se estivesse na 5a. avenida de NY é agora responsabilidade do equipamento (hardware ou software, na forma de plugin). Todas as gravações foram realizadas de maneira “neutra”, sem nenhuma impressão digital marcante, e em teoria temos a liberdade de adicionar qualquer impressão que desejarmos.

Mas isto é teoria, porque simular o mundo real nunca foi tarefa fácil! O processador de reverb precisará cirar e adicionar ao som original um campo sonoro extremamente complexo e convincente, a ponto de enganar nosso cérebro.

(Ok, nem sempre precisamos “enganar” o cérebro. Alguns reverbs antigos e tradicionais, baseados em peças físicas e móveis, como o do tipo “mola”, usado em amplificadores de guitarra, ou do tipo “plate” – um clássico nas vozes dos anos 60 – não soam nada naturais, e mesmo assim podem deixar o som, digamos, mais interessante. Aí entramos no terreno da estética, dos modismos e dos sons que marcaram épocas. Vamos nos concentrar na capacidade de simular ambientes reais.)


Processadores de Reverb

Nos tempos modernos, dos equipamentos digitais, existem basicamente dois tipos de processadores de reverb. Os de Algoritmo e os de Convolução.

No primeiro caso, o usuário escolhe algumas características da “sala virtual” (como tamanho e tipos de revestimentos) e o processador irá calcular as centenas ou milhares de ondas sonoras que compõe o reverb. Haja cálculo! Cada uma das ondas tem seu próprio percurso, sonoridade, atraso. Não é difícil entender porque um reverb de algortimo tem que ser MUITO bem projetado para criar um som convincente. No mundo da tecnologia, precisão e velocidade equivalem a custo! Queremos que o reverb seja simulado em tempo real (enquanto escutamos o áudio, para fazermos julgamentos e ajustes) e que tenha excelente qualidade, sem fundir a CPU do computador.

Existe de tudo no mercado. Reverbs excelentes e caros, reverbs medíocres e gratuitos. A cada nova mixagem, me convenço ainda mais da importância de um bom reverb na sonoridade final. Pode chegar ao ponto de fazer a diferença entre uma produção profissional e uma amadora. Consequentemente, esteja preparado para investir um bom dinheiro em equipamentos (ou plugins) e computadores potentes para atingir um alto nível de qualidade em reverbs.

altiverb - Reverb de Convolução

O outro tipo de processador utiliza uma tecnologia chamada Convolução para criar o reverb. Ao invés de prever, simular e calcular as ondas sonoras, uma impressão digital real da sala é usada. Esta impressão é capturada através de um processo de gravação (extremamente complexo e delicado) que capta a “sonoridade” de um ambiente qualquer, em um arquivo digital chamado RESPOSTA AO IMPULSO (Impulse Response ou IR).

No momento do processamento, este arquivo é misturado ao áudio original (seco) e o cálculo de convolução faz o áudio soar como se estivesse de fato naquele ambiente! Os processadores de convolução normalmente trazem suas próprias bibliotecas de impulsos – salas de concerto, ginásios, estúdios, catedrais, banheiros, quartos, salas – às vezes de ambientes inusitados – como o  interior de um tanque de guerra – e não raramente, impressões digitais de salas famosas, como o Royal Albert Hall de Londres.

Gostaria que o seu vocalista soasse como se estivesse cantando no centro do Coliseu em Roma? É só usar este impulso,  que já foi gravado dentro do Coliseu e está disponível no mercado.

O resultado final, naturalmente, depende da qualidade do arquivo de impulso. Existem excelentes impressões digitais à venda e para download, dos lugares mais curiosos e famosos. A maioria delas pode ser utilizada por diferentes modelos de processadores de convolução. Problema resolvido? Negativo. A convolução também é um processo EXTREMAMENTE pesado e exige muita CPU. Leia-se computadores potentes e caros.


Qual usar?

No dia-a-dia, acabamos usando reverbs de convolução nos casos mais críticos, como por exemplo, durante a masterização. Nesta fase, não precisamos processar muitos canais simultaneamente e o reverb terá um impacto decisivo, pois será adicionado ao áudio final, já mixado.

Durante a mixagem, nem sempre podemos nos dar o luxo de usar um processador de convolução em cada instrumento. Acabamos abrindo mão da qualidade para usar processadores de algoritmo mais simples. Reservamos CPU para as trilhas mais importantes.

Uma coisa é certa: trata-se de uma questão de tempo até que todos tenhamos acesso a uma imensa capacidade de processamento, a baixo custo. Neste ponto, os reverbs de convolução serão amplamante utilizados. Ou então, novos reverbs de algortimo extremamente convincentes serão desenvolvidos. De um jeito ou de outro, é apenas uma questão de tempo.

Talvez em menos de uma década todos nós possamos usar reverbs, compressores e equalizadores IMPECÁVEIS. Assim como hoje algumas pessoas já têm acesso aos reverbs de convolução que nem eram imagináveis há 20 anos atrás. E curiosamente, algo me diz que nem por isso teremos melhores músicas no futuro…


Qual o seu Reverb Favorito?

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