Os 7 Elos da Gravação

In blog by zasnicoff

O Elo pode Arrebentar - Dennis Zasnicoff - Produção MusicalOntem estava trocando mensagens com um leitor, quando tive a idéia deste post. Ele dizia que a realidade dos Home Studios está bem abaixo das condições ideais para se produzir música. Que a acústica, os instrumentos e inclusive os músicos não oferecem a qualidade desejável para se fazer boas captações. Ele gostaria de ter mais dicas sobre como superar estas dificuldades para conseguir um bom resultado.

Se por um lado concordo com a estatística dele, por outro, devo esclarecer que alguns fatores da gravação são fundamentais e não podem ser compensados, substituídos ou ignorados. Para uma rápida analogia, vamos considerar alguém que pretende escrever um livro.

Algumas habilidades são básicas e necessárias para um escritor: saber falar o idioma, ler e escrever, ter uma idéia (roteiro) e conseguir transformá-la em texto através de digitação ou manuscrito. Em um nível menos fundamental, mas importante para o poder de clareza e comunicação do livro, o autor necessita de um bom vocabulário, conhecer as regras da gramática e organizar pensamentos. Subindo mais um degrau, outros aspectos podem fazer toda a diferença no resultado final e impacto do livro: escolha das palavras, estilo pessoal de escrever, idéias genuínas, vivência e cultura, poesia, objetividade, riqueza de descrições.

Talvez o escritor não seja muito culto e nem possua um vocabulário muito amplo, mas certamente ele pode se aventurar na escrita e ter um bom resultado. Desde que SAIBA ESCREVER ! Algumas habilidades são fundamentais. Outras importantes, outras desejáveis. Existe uma ordem de prioridades e pesos. Isso nos leva ao conceito de 7 elos na gravação. Todos eles FUNDAMENTAIS para o sucesso de uma captação.

O professor e amigo Omid Burgin foi a primeira pessoa que me colocou em contato com este conceito. Provavelmente, minha versão abaixo já esteja um pouco adaptada e diferente, mas não deixa de representar o mesmo conceito. Numa produção musical, sabemos que a composição é o primeiro passo. Mixar e masterizar uma canção fraca não fará dela um sucesso. Da mesma forma, durante as captações, o produtor musical deve estar atento aos elementos que interferem no processo e seus impactos nas etapas seguintes. São eles:

  1. SALA – É aqui que o som se desenvolverá e será captado. Uma infinidade de nuances, reflexões, fenômenos acústicos e sonoridades diferentes dependem da sala. Uma orquestra tocando ao ar livre perderia todo o impacto do arranjo, assim como uma banda de rock gravando no banheiro teria o resultado totalmente comprometido. Quando a sala se tornar um obstáculo na captação, estude alternativas: captação próxima, multi-tracking, gravação em linha ou até mesmo de instrumentos virtuais.
  2. INSTRUMENTO – Não é a toa que alguns violões custam 10 vezes mais do que outros, que pianos de cauda sejam raros e desejáveis, peles, pratos e tambores de bateria, amplificadores de guitarra, etc. etc. O instrumento precisa ter um nível de qualidade e timbragem compatíveis com o objetivo da produção e com a qualidade dos demais elos. Da mesma forma que uma sala pode prejudicar o potencial de um naipe de metais, uma bateria de brinquedo não vai dar conta do recado, mesmo que a sala seja excepcional. Nunca é demais lembrar que a voz também é um instrumento, cuidado na escolha do cantor. Os intrumentos devem ser preparados para uma boa performance. Isto inclui afinação, amaciamento e manutenção.
  3. COLOCAÇÃO – Experimente tocar o mesmo violão em diferentes posições da sala. A mudança de somoridade pode ser impressionante. Mais fácil ainda, escolha um ambiente da sua casa e caminhe por todos os lados enquanto fala. Repare nas nuances, reverberação, equilíbrio de graves e agudos. Essas diferenças podem acabar pesando muito mais do que a escolha entre dois instrumentos, de marcas e modelos diferentes. Sempre uma gravação deveria ser precedida de testes de posicionamento e audição. Produtor, engenheiro e músicos caminham pela sala, escolhendo uma colocação para o instrumento. Normalmente, o músico é quem tem mais intimidade com o instrumento e pode indicar com maior precisão onde gostaria de gravar.
  4. INSTRUMENTISTA – Não precisamos quebrar a cabeça aqui. Músicos de primeira conseguem tirar um som de qualquer instrumento. Mesmo que o instrumento seja de baixa qualidade. Mas quando estão no lugar certo, com o instrumento certo, superam qualquer expectativa. Na mesma sala, o mesmo intrumento com a mesma colocação, pode soar totalmente diferente nas mãos de outro músico. Não subestime o poder deste elo. Existem músicos especializados para estúdios de gravação e felizmente, temos uma boa riqueza e quantidade de instrumentitstas no Brasil. Isso pode significar contratar um profissional para a gravação de um disco ou de uma faixa, mesmo que a formação original da banda seja diferente ao vivo. Veja, o objetivo final é a música! Músicos podem e devem estudar, praticar, esudar, praticar e investir em um bom instrumento. Do contrário, devem estar cientes das limitações do projeto.

  5. MICROFONAÇÃO – Naturalmente, essencial para a construção do timbre desejado. A posição e o modelo do microfone interferem diretamente na equalização, detalhamento, clareza, reverberação, intensidade. Em outras palavras, a microfonação deve ser encarada como MIXAGEM! Quando a colocação do instrumento e do microfone são alteradas na sala, produtor musical e engenheiro estão, nada mais, nada menos, do que mixando. Decisões nesta fase costumam pesar MUITO mais do que efeitos e correções aplicados na fase de mixagem. O impacto da microfonação será tanto mais benéfico, controlável  e notável quanto melhor a acústica da sala. Muitas pessoas investem um bom orçamento em microfones e prés caríssimos e comprometem todo o potencial do equipamento com uma sala deficiente. Conheça e explore as técnicas de microfonação e sempre modifique o posicionamento, escutando e decidindo como gravar. É frustrante a quantidade de produtores e engenheiros que saem gravando com receitas de bolo, sem testes ou conversas sobre o assunto.
  6. FLUXO DO SINAL – A primeira regra aqui é: o melhor caminho é o caminho mais curto. Em outras palavras, do microfone para o pré-amplificador e do pré para o gravador. Se outros equipamentos, patch-bays, cabos, splitters ou mesas estão no caminho, eles precisam ter função e necessidade bem claras. Cada ves que o sinal passa por um equipamento, ele sofre algum tipo de alteração, mesmo que o equipamento esteja em modo bypass. Conectores e cabos podem degradar o áudio, favorecer a indução de ruídos, retirar conteúdo harmônico, baixar o nível de intensidade. Se você está gravando através de um console, decida se ele é realmente essencial. Se deseja usar os prés do console mas não está mixando e nem equalizando na mesa, utilize as saídas DIRECT-OUT, que oferecem o caminho mais curto. Se você dispõe de prés externos melhores, então não passe o sinal pela mesa, gravando diretamente na entrada do gravador (p. ex.: interface de áudio). Atente para o comprimento dos cabos. Conheça os diferentes tipos de sinais: MIC, LINE, INSTRUMENTO, SPEAKER. Utilize D.I.s quando oportuno e não economize na qualidade dos cabos e conectores. Cuidado com os loops-de-terra!
  7. ESTRUTURA DE GANHO – Todos os elos acima foram planejados, testados e decididos. Antes de apertar o botão de REC, precisamos ter certeza que o áudio chegará ao gravador com qualidade, bom nível, sem distorções, ruídos ou interferências. Com gravações em 24 bits e um bom controle dos elos acima, dificilmente haverá necessidade de se comprimir ou equalizar artificialmente durante as captações. Para regular os nível de sinal, pense no percurso do áudio. Atenuadores ou PADs no microfone, ganho de entrada do pré, ganho de saída do pré e ganho de entrada do gravador devem ser ajustados cuidadosamente, nesta ordem, de maneira que o sinal esteja sempre alto, limpo e com margem de segurança em todos os pontos. Cada equipamento possui uma zona de conforto. Se o sinal estiver muito fraco, ele precisará ser amplificado demais no estágio seguinte e causará ruídos. Se estiver muito alto, pode gerar distorções. Na maioria dos casos, gravações digitais com um nível médio de -20 ou -18dBFS são mais do que suficientes para uma boa qualidade de áudio, com margem de segurança para as passagens mais altas.

Existe uma ordem de importância ou pesos para os 7 elos? Creio que não, eu diria que todos são fundamentais. Outros aspectos, considerados desejáveis, seriam: organização de cabos e conectores, facilidade do músico em gravar rapidamente e corretamente, comunicação clara entre produtor, engenheiro e músicos, iluminação e temperatura da sala de gravação etc. Podemos citar vários, mas os 7 elos acima são realmente essenciais.

Facilmente, um deles pode comprometer todos os demais. A idéia aqui é pensar no elo mais fraco, como numa corrente de metal. Se todos, exceto um dos elos, forem sólidos, ainda assim a corrente pode arrebentar no ponto mais fraco.  O segredo está em manter todos os elos no mesmo nível de “solidez”. E não ter a ilusão de que um elo forte pode compensar outro fraco.

É responsabilidade do produtor musical avaliar e corrigir eventuais falhas nesta “corrente” de gravação. Se o instrumento ou sala são fracos, não tente compensar com bons microfones. Hora de fazer uma reunião com os músicos e explicar as deficiências e limitações do projeto. Todo projeto possui limitações, sem problemas, o importante é que todos estejam cientes e busquem atingir o melhor resultado possível – e não o impossível!