Evolução da Produção Musical

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Evolucao da Producao Musical - Dennis Zasnicoff - Produtor Musical1960:

Descubra uma excelente composição através de uma editora confiável, contrate os melhores músicos do país, escale uma equipe de arranjadores, maestros e letristas. Tenha domínio de acústica, posicione os microfones corretamente dentro do próprio estúdio que foi cuidadosamente construído. Escute. Não deixe que a tecnologia atrapalhe a arte e, com muita criatividade para superar as limitações técnicas, grave as performances com a maior naturalidade possível. Faça a mixagem e masterização com engenheiros veteranos que ouvem melhor do que enxergam. Invista na carreira do artista e faça um planejamento de lançamentos, formatos e mercados. Estude música e não tenha preconceitos. Especialize-se em um estilo musical e tenha uma rede de contatos confiável e respeitável. Entenda que o artista vem antes de tudo e que o objetivo final é a Música. 

1970:

Nunca se esqueça dos preceitos acima. Aventure-se pelos novos estilos sem perder o alto nível de qualidade técnica e artística. Os novos insrumentos eletrônicos e sonoridades podem ajudar e modernizar, mas nunca irão substituir bons músicos e performances invejáveis. Um álbum é uma obra de arte, uma música é uma parte da obra, tenha consistência no projeto. Gravadoras, selos, sindicatos, profissionais e estúdios podem e devem ajudar uns aos outros. Mantenha os seus artistas talentosos satisfeitos e produtivos.

1980:

Nunca se esqueça dos preceitos acima. Aproveite o crescimento de mercado e os novos formatos de mídias para alcançar e emocionar mais pessoas. Mas continue se concentrando na Música, este sempre é o objetivo final. Experimente, ouse, crie novas linguagens musicais e sonoridades originais. Convença-se de vez que a tecnologia não substitue a arte. Faça um bom planejamento de orçamento e recursos humanos para lançar um álbum acima das expectativas. Nunca perca o prazer de ouvir música, continue assistindo a shows ao vivo de qualidade e incentive a cultura musical na sua comunidade. Video-clips podem adicionar emoção às músicas, mas não as substituem. POP significa popular, aquilo que agrada a muita gente, que convence um público eclético e exigente, portanto, o que tem alta qualidade técnica e artística. Não perca tempo com a grande oferta de equipamentos e tecnologias, domine apenas alguns e use-os a seu favor.

1990:

Esqueça alguns preceitos acima. O público está começando a perder referências, pois não teve contato com as produções das décadas anteriores, e está se distraindo com novas opções supérfluas de entretenimento. Ao invés de resgatar a qualidade musical, procure uma maneira de enfiar produtos guela abaixo, ganhando milhões e milhões o mais rápido possível. Explore a tecnologia digital porque, afinal, ela acelera os processos e diminue custos. O resultado final já não é tão importante. Extraia o máximo dos singles porque já não existem tantos álbuns e boas músicas. Desencane da formação musical, de arranjadores, boas salas de gravação, da carreira do artista. Faça de tudo para monopolizar o know-how e o mercado. Economize custos, mais e mais. Produza músicas descartáveis que gerem uma renda rápida, começando a gravar imediatamente a próxima bola da vez. Engane, crie ilusões, utilize playback e computadores para substituir músicos medíocres. Você agora determina o que é POP, e não mais o público. Tente impedir qualquer forma de cópias e comércio alternativo, não se renda aos novos modelos de negócio, mantenha a sua posição egoísta irredutilvelmente.

2000:

Esqueça todos os preceitos acima. Não se desespere, o público continua sem cultura musical e não sabe diferenciar uma boa produção de uma ordinária. Os milhares de competidores que você mesmo ajudou a criar também estão lançando artistas fracos e péssimas faixas a baixo custo. Mas elas estão agradando, então é melhor você pensar em uma maneira de baixar ainda mais os custos e a qualidade. Finalmente, comece a prestar mais atenção na tal da Internet. Mas não como meio de aumentar a cultura musical, e sim como ferramenta para vender mais, determinar o que é POP e o que deve ser consumido. Desencane totalmente da música, ela já não é mais importante. O que vale agora é ganhar o público jovem com batidas dançantes, monótonas e letras desprezíveis que casam com a linguagem deles. Tente valorizar a imagem do artista ao máximo, é sua única chance. Crie personagens, polêmicas, falsos mitos, glamour, hype. Perca metade do seu dia tentando entender como funciona aquele novo software e como ele pode criar um timbre que já era criado há 30 anos atrás em 5 minutos. Despeça todos os músicos e feche os estúdios. Baixe uma versão pirata da última versão do ProTools (apesar de ser categoricamente contra a pirataria) e produza toda a sua música dentro do computador. Se alguém precisar cantar, descaraterize totalmente a voz para mascarar as imperfeições. Coloque todos os recursos, efeitos e loops disponíveis na mesma faixa. Mas sem muito planejamento, vá colocando, finalize e comece a tocar nas rádios. Alto, muito alto. Produza um clip cinematográfico para distrair o ouvinte. Nunca considere voltar a fazer boa música e melhorar a cultura musical do seu público. Entitule-se produtor musical, é chic. Escolha o estilo do ano e faça todos os artistas e faixas soarem parecidos, afinal, quem só conhece fast food, só come fast food. Quando algo um pouco diferente aparecer, pegue carona e copie tudo o que puder. Pensando bem, a música está tão ruim, mas tão ruim, que é melhor começar a regravar sucessos antigos. Use e abuse das versões acústicas, do novo-velho. Valorize tecnologia, hardware e software ao extremo. Tarde demais. Quando não resistir, feche o seu negócio e diga para todos que não dá para viver de música.