Gestalt Jazz Café

In blog by zasnicoff

Comida da VóAposto que sua avó é uma grande cozinheira!

Daquelas que pode passar horas e horas na cozinha, faz o melhor bolinho de arroz do mundo, adora as receitas da Ana Maria Braga e se orgulha de ver os netos se entupirem de comida.

Também arriscaria dizer que ela nunca fez um curso de culinária, verdade?

Será que todas as avós nasceram com o incrível dom da culinária? Ou será que 6 horas por dia, 5 dias por semana, durante 50 anos, transformam qualquer um num verdadeiro chef…

Cursos e livros aceleram a curva de aprendizado, sem dúvida. Mas é a prática – a repetição, o treinamento e a consistência – que fazem do piloto do avião alguém experiente e confiável. Horas de vôo. Pratos servidos. Discos escutados. Músicas mixadas.

Volto neste assunto por alguns motivos. Primeiramente, porque recebi um texto muito legal do Daniel Laviola, aluno aplicado do Curso Online de Produção Musical. Tenho certeza que ele captou o conceito do aprendizado, e não posso negar que fico orgulhoso de ter meus alunos participando do blog.

Outra motivação é a recorrência da boa e velha pergunta, que parece ter se intensificado neste final de ano, época de compras e presentes:

“Que equipamentos devo comprar? O que você acha deste modelo? Prefere este ou aquele? Qual o melhor monitor? Quanto custa uma boa interface?”

Oras, minha avó nunca precisou das famosas panelas Le Creuset, nem de facas Henckels, para fazer um “Sofrito de Carne” maravilhoso! São apenas panelas e facas.

Se você está ansioso e parece não pensar em outra coisa senão nos equipamentos, siga o exemplo de sua avó. Pratique, horas e horas por dia, durante anos. Tem que ter paciência? Claro! Acredite, nenhum equipamento vai fazê-lo escrever melhores músicas, microfonar uma bateria com precisão ou transformar o seu mix em um “som profissional”.

O grande segredo é desenvolver a audição. Aprender a ouvir. Com a palavra, Daniel.


Café e Jazz, apenas uma questão de Gestáltica?

por Daniel Giani Laviola (aluno do Audição Crítica) 

Achei muito curioso o que ocorreu comigo nesses dias. Como um bom amante do café espresso, estou tendo que aprender a degustá-lo sem açúcar,pois segundo os Baristas e entendidos do assunto, o açúcar mascara o real gosto do café, que deve ser apreciado como um bom vinho.

Nas primeiras vezes foi terrível sentir aquele gosto extremamente amargo que causou uma forte sensação de estranheza, como se aquilo nem fosse café…A boa notícia é que com o tempo você se acostuma e o “amargor” inicial acaba passando desapercebido.

Hoje pela manhã, justamente no momento do café, coloquei pra tocar no meu iPod um álbum de Jazz de Pat Metheny e Jaco Pastorius (que dispensam comentários). Como meus ouvidos ainda não estão muito familiarizados com esse estilo de música (em termos de audição crítica), tive um grande choque ao escutar a faixa “Misso” onde o baixo de Pastorius ocupa uma posição muito “estranha” no panorama (creio eu que uns 45 à direita).

Bom, onde quero chegar? O fato de estar sempre acostumado com o “açúcar” das musicas populares, onde o baixo, por sua energia, sempre ocupa o centro do pan, me fez estranhar completamente o fato do instrumento de Jaco Pastorius estar copiosamente posicionado à direta do PAN, ao ponto de até causar um certo incômdo, ou “coceira” nos ouvidos após alguns instantes, como se algo estivesse errado, ou como se eu estivesse sem referência, de ponta cabeça, ou algo parecido. 

A Teoria Gestáltica, além de outras coisas, diz que o todo é mais do que a soma das partes que o constituem. Por exemplo: uma cadeira é mais do que quatro pernas, um assento e um encosto. Uma cadeira é tudo isso, mas é mais que isso: está presente na nossa mente como um símbolo de algo distinto de seus elementos. Um café espresso é mais do que água a 90ºC, pó (e açúcar?), ele é tudo isso, mas é mais do que isso.

Na música podemos pensar da mesma maneira: Para a maioria das pessoas, uma musica é mais do que rítmo, harmonia e melodia. Uma musica é o conjunto de tudo isso. Mas quando alguma das partes é alterada, saindo do referencial de “normalidade” ao qual o ouvido das pessoas foi acostumado desde a infância, um interesse é despertado. 

Fiquei refletindo por uns instantes: Será que à mesma maneira do café, vou acabar me acostumando e até desenvolvendo um novo referencial ou paladar musical nas minhas análises?