Etapas da Masterização

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Etapas da Masterização - Dennis Zasnicoff - Produtor MusicalEm outro artigo que pode ser visualizado aqui, passei algumas dicas para você preparar seu mix para a masterização. Outro ponto importante citado no artigo sugeria que os engenheiros de mixagem encaminhassem o mix para outro engenheiro fazer a masterização. Principalmente porque estariam envolvidos demais com a mixagem, tornando-se incapazes de escutar com “ouvidos frescos” um trabalho que foi realizado durante horas e horas.

Recentemente, passei por uma situação destas. Recebi uma mixagem para masterizar e em poucos minutos percebi que o som do bumbo estava excessivamente presente – extenso, grave, forte, cheio de harmônicos. No papel de masterizador – e conhecendo o estilo da produção e as intenções do produtor – naturalmente precisei utilizar um equalizador cirúrgico e um compressor multi-banda para “neutralizar” a agressão do bumbo. Mais tarde, soube que o engenheiro de mixagem ficou chateado. Ao menos, frustrado, pois tinha passado horas processando as trilhas do bumbo para atingir aquela sonoridade.

Artista e produtor não se incomodaram com a sonoridade durante as provas de mixagem.  Este é exatamente o ponto que eu queria passar. Cada profissional está imerso em um dos aspectos da produção e não pode reparar em todos os detalhes. Durante a masterização, o simples fato de estarmos escutando aquela música em outro ambiente, com outra cabeça, sem visualizar as trilhas na tela do computador, nos fez reparar em pontos que passaram despercebidos. O próprio produtor percebeu agora que o bumbo estava estranho e aprovou as mudanças da masterização. No final, todos concordaram. Se o mesmo engenheiro de mixagem tivesse realizado a masterização, muito provavelmente o som do bumbo permaneceria o mesmo, não pela sua incapacidade de escutar, mas principalmente pelo fator emocional de ter criado “um filho”.

Pois bem, com esta deixa, listo abaixo as etapas que utilizo para masterizar 90% das mixagens que recebo. Lembrando que cada música SEMPRE deve ser masterizada individualmente, com ouvidos descansados, comparações A/B no MESMO VOLUME (veja o próximo artigo do blog!) e sem utilizar presets. O que funcionou para a primeira faixa pode ser devastador para a quarta.

  1. Filtragem de sub-graves e/ou DC offset: para retirar conteúdo que “rouba” espaço na música, não é audível e prejudica a operação das etapas seguintes.
  2. Atenuação de ruídos: podem ser provenientes de algum equipamento de gravação, mixagem ou do ruído ambiente do estúdio. Principalmente no início e no final das faixas.
  3. Equilíbrio do estéreo: mais frequentemente do que pensamos, um dos canais pode estar mais alto do que o outro, desviando a atenção do ouvinte e/ou deslocando os elementos que deveriam estar no centro do palco sonoro.
  4. Equalização corretiva geral: para equilibrar os excessos ou faltas de frequências que podem, por exemplo, contribuir para uma sonoridade abafada, brilhante ou anasalada. Normalmente, esses defeitos se originam de problemas acústicos no estúdio e na sala de mixagem.
  5. Equalização criativa: não mais com o caráter corretivo, mas sim para destacar elementos que pedem maior presença no estilo em questão. Lembre-se que destacar pode significar esconder outros elementos.
  6. Limitação de picos excessivos: ainda não tem a função de aumentar o volume da música, somente diminuir os picos exagerados que atrapalham outros processamentos e podem ser atenuados SEM alterar a sonoridade. Nesta etapa, somente os picos que estão realmente fora da média são limitados. Tipicamente, eles têm uma duração inferior a 10ms e portanto não são audíveis.
  7. Reverberação adicional: em doses homeopáticas e muito bem selecionada, pode ajudar na espacialidade e naturalidade da música.
  8. Reforço de transientes: se está faltando “vida”, sobretudo na caixa da bateria ou em outros elementos de ataque, um reforço dos transientes pode fazer toda a diferença, sem alterar outros elementos do mix. Cuidado aqui para não criar picos excessivos que provavelmente serão limitados novamente na sequência.
  9. Compressão multi-banda: pode alterar significativamente a proposta musical. Deve ser usada com cautela para controlar grandes variações em determinadas regiões do espectro ou reforçar elementos pouco sólidos.
  10. Equalização cirúrgica: após algumas etapas, possivelmente algumas regiões estreitas do espectro (e muitas vezes em pequenos trechos da música) já podem ser corrigidas, normalmente através de atenuação. Neste ponto, qualquer variação acima de 3dB é um indicativo de que as etapas anteriores falharam ou então que a mixagem deveria ser refeita.
  11. Maximizador de volume: os famosos loudness maximizer usados e abusados pelos novatos, inclusive durante as fases de mixagem. Tem a função de aumentar o volume da música, até o ponto onde NÃO HÁ DEGRADAÇÃO DO ÁUDIO. Exageros nesta etapa podem comprometer a dinâmica da música e gerar distorções bastante audíveis. O estilo e o produtor musical, juntamente com o masterizador, determinarão o volume de uma das faixas, que por sua vez, será a referência de volume para as demais faixas do disco.
  12. Limitador “Brickwall”: para limitar qualquer pico que ainda insista em atingir o máximo, podendo causar clipping do áudio. Via de regra, costumo ajustar essa “parede” em -0.3dB, e não em 0dB, por razões que podemos comentar em um próximo artigo.

Outras etapas podem e são adicionadas nesta lista, de acordo com a necessidade. No entanto, a maioria dos projetos acaba passando por todas elas, e normalmente nesta ordem. Depois destes processamentos, outros detalhes de cada faixa podem ser ajustados, como fade-in, fade-out, pausas entre faixas, dithering e conversão para outros formatos (CD-Audio, MP3 etc.).

Tenho certeza que o leitor que ainda não acompanhou uma masterização vai entender agora porque trata-se de uma etapa tão especializada, demorada e, portanto, valorizada nas produções sérias.