Cabine de Gravação

In blog by zasnicoff

recording_boothO mundo do Áudio é repleto de vícios e mitos. Ao que parece, nós precisamos de referências, dogmas populares, para nos sentirmos mais seguros durante uma conversação ou decisão de compra. Devemos ter cuidado com os julgamentos precipitados.

Quando alguém comenta que tal pessoa faleceu, nossa primeira reação é perguntar: “Morreu do quê?”. Como se isso fosse o mais importante. Talvez porque nosso cérebro precise de alguma informação concreta para relacionarmos aquele assunto com algum outro caso já conhecido, para medir nossos próprios riscos. Estranho, mas quase sempre esta é a primeira pergunta.

No mundo náutico, quando alguém dizque tem um barco, em menos de dois segundos perguntam “de quantos pés?”. Há barcos de 30 pés com proa aberta, sem cabine ou qualquer requinte. Existem outros cabinados, com dois motores e três vezes mais área útil – também três vezes mais caros. Mas incoscientemente, queremos comparar, medir, julgar, participar da conversa. Para nos fazermos de entendidos? Curioso.

Câmera digital é outro exemplo. “Quantos mega-pixels?”. Nos LCDs, polegadas. Nos vinhos, safra e uva. Apartamentos, área útil. Mesa de mixagem, número de canais. O real valor do produto – o conjunto de suas qualidades – fica totalmente subjulgado por algumas características mais populares.

Criamos nossos próprios critérios de avaliação, e insistimos neles. Resultado: nem sempre tomamos uma boa decisão. Se não nos policiarmos e abrirmos a cabeça, ficamos viciados nestes critérios, ou especificações técnicas, que são pouco úteis no dia-a-dia.

Sem pensar muito, responda: quais são os vícios no Áudio? Qual a primeira pergunta que aparece na roda de amigos dentro do estúdio? Aqui estão algumas respostas prováveis: Pro Tools, valvulado, modelo de microfone, analógico, sample rate.

Como se estes fatores determinassem o resultado final de uma produção! Eles nunca significam mais do que a música, a performance, a acústica da sala, as técnicas de microfonação ou o estilo de trabalho. Por que será que raramente alguém pergunta “”qual o objetivo de uma produção?”. O que devo estudar ao invés de “o que devo comprar?”. Como faço para melhorar minha música, ao invés de “qual o melhor microfone para violão?”. Isto sim seria importante!

Sem falar nas tabelas infalíveis que ensinam a equalizar ou comprimir instrumentos: 3dB de ganho em 4kHz no bumbo e 3:1 de compressão na guitarra. Seria tão fácil (e monótono) se fosse assim…

CABINES DE GRAVAÇÃO

Recentemente, tenho recebido muitos questionamentos sobre Cabines de Gravação, sobretudo para voz. Parece ser um dos novos dogmas. Existe uma preocupação crescente dos usuários de Home Studios em adquirir uma cabine de gravação.

Sempre procuro entender porque aquela pessoa está querendo construir ou comprar uma cabine. E muitas vezes, nem ela sabe explicar… Acho que é um dos vícios que estamos aprendendo: “uma boa gravação de vocais só é possível com uma bela cabine de gravação”. Meu objetivo neste artigo é refletirmos se realmente esta é uma necessidade.

ISOLAÇÃO

Via de regra, uma cabine de gravação é portátil, relativamente leve, possui visores e é desmontável. Só com estes dados já podemos concluir que ela não terá uma boa isolação. Talvez diminua alguns dBs do ruído de fundo, mas pode trazer outras desvantagens, como veremos.

Se o objetivo é gravar num ambiente silencioso, então primeiro devemos tratar os ruídos que estão na sala. Tanto os que se originam dentro dela, quanto os que vazam de fora para dentro. Porque estes ruídos TAMBÉM vão entrar na cabine. Principalmente os graves, que praticamente não enxergam a cabine como barreira (lembrando que os ruídos do ar-condicionado e aqueles oriundos da rua são tipicamente graves).

É claro que o ruído entra na cabine com um pouco menos de intensidade, mas não a ponto de resolver o problema de uma sala barulhenta. Cabines cujo objetivo é isolar podem ajudar um pouco em apresentações ao vivo ou gravações simultâneas de vários instrumentos. Porém, para os overdubs e gravações solo, existem OUTRAS técnicas mais simples e eficazes de se conseguir um som seco e controlado.

SOM SECO

É fato que se revestirmos o interior da cabine com espumas, tapetes ou lã de rocha, teremos um ambiente bastante seco (sem reverberação). Pra não dizer morto, porque a sonoridade chega a ficar sem vida, extremamente artificial, o que é bem difícil de corrigir na mixagem. Normalmente,o que foi captado é bem diferente do que buscamos no resultado final, exigindo um bom tratamento de EQ e Reverb artificial.

Para captar um som “seco”, outros recursos maispráticos ebaratos – que dispensam uma cabine de gravação – seriam: escolha do padrão polar do microfone, ajuste da distância do mic, posicionamento da fonte sonora e uso de painéis móveis. Estes últimos, uma das melhores ferramentas que podemos ter à disposição!

bswedien_panelsPor exemplo,o renomado engenheiro Bruce Swedien sempre carrega consigo, para qualquer sessão de gravação, seus próprios microfones, cabos e painéis móveis. Nunca dependeu de cabines para captar um som incrível, muito menos de salas “perfeitas”, porque uma boa sala sempre pode ser adaptada para uma determinada gravação. O segredo está no uso de painéis (tanto refletores quanto absorvedores) e na correta seleção e posicionamento dos microfones.

flexiscreenNos últimos anos, vários fabricantes têm criado painéis específicos para a captação de voz (de imediato, me lembro dos modelos da “Se” e da “Real Traps”) que podem oferecer um excelente resultado. Muito mais prático do que uma cabine de voz!

PERIGOS DA CABINE

Além das desvantagensmais imediatas – custo, perda de espaço, baixa eficiência de isolação e som excessivamente seco – uma cabine tem outro problema bastante sério: coloração dos médios.

As dimensões da cabine criam uma verdadeira bagunça nas frequências médias. Coisas da física, com as quais não podemos lutar! Reflexões fortes, cancelamentos, picos, vales, filtro-pente, ondas estacionárias. Com muita sorte (nunca aconteceu comigo), é possível que um instrumento específico (ou voz), em um determinado projeto, soe exatamente como gostaríamos dentro da cabine. Muito raro, melhor não contar com a sorte. Na maioria dos casos, o som captado estará seriamente alterado e comprometido, exigindo horas e horas de edição e mixagem.

Por outro lado, quase sempre consigo uma boa captação em ambientes aparentemente inadequados. Nada como meia-hora de teste, com fones de ouvidos, paciência e planejamento (todas as gravações de voz deste artigo foram feitas na minha sala de mixagem, que não possui isolamento nem cabine, mas sim um bom tratamento acústico.)

Quando usamos painéis móveis, dentro de uma sala relativamente grande que nos permita explorar espaços e “criar” ambientes acústicos, nossas chances de uma boa captação aumentam consideravelmente. Lembre-se também que normalmente há outros espaços esquecidos que podem ser utilizados (ou ao menos testados) para gravação: banheiro, escadaria, garagem, closet, armário, quarto, sala, cozinha. É surpreendente descobrir que alguns destes ambientes são muito mais isolados (e silenciosos) do que imaginamos. Outros funcionam muito bem para determinados instrumentos. Eles já estão lá, construídos, prontos para serem usados.

Neste cenário, uma cabine só faz sentido se for BEM ISOLADA e relativamente GRANDE, para não colorir excessivamente o som.

Um vocal gravado num espaço maior (na própria sala original, sem cabine) devidamente microfonado, provavelmente terá um timbre mais natural e amigável durante a mixagem. A microfonação próxima pode diminuir consideravelmente a reverberação da sala, se esta não for desejada. Principalmente com microfones bem direcionais.

Quando o Red Hot Chilli Peppers gravou seu último álbum, estavam buscando uma sonoridade “ao vivo” – todos tocando juntos, sem overdubs desnecessários. O vocalista utilizou uma cabine de vocal, no meio da sala, porque neste cenário os vazamentos da bateria seriam MUITO fortes no microfone do vocal, se este estivesse no mesmo espaço acústico. Isto poderia dificultar as edições e eventuais overdubs. Repare, porém,que estamos falando de uma necessidade específica – gravação simultânea, na mesma sala, com instumentos altos. Se a voz pudesse ser gravada depois, certamente a cabine seria dispensada.

A questão que devemos nos perguntar quando consideramos a compra de uma cabine é: os ganhos com o isolamento justificam as perdas no timbre?

Procure por vídeos que mostram gravações em estúdios. Com que frequência você encontra uma cabine sendo utilizada? Quase nunca. Uma sala grande sempre foi e sempre será a primeira opção para uma gravação. Aí entra o know-how do técnico (e do produtor), que definirá estilo de gravação, tipos de microfones e posicionamentos.

Sempre questione as receitas e crenças. Boas aventuras acústicas!