Você sabe mixar?

In blog by zasnicoff

charles-dyeQuem acompanha meu Blog deve ter reparado que frequentemente escrevo sobre a “curva de aprendizado”, que às vezes chamo de “degraus de consciência”. O conceito é simples, mas nem sempre compreendemos de imediato, até passarmos pela situação!

Um exemplo comum: pessoas que têm facilidade com computadores e Internet não apresentam grandes dificuldades para instalar programas, acessar sites e arrumar problemas “paranormais” da informática. São os técnicos da família, sempre requisitados para consertar um computador quando ele “dá pau”.

Na minha família (e círculo de amigos), eu sou uma destas pessoas. Por diversas vezes, arrumo um problema no computador (ou no home-theater, TV, estúdio) que para mim é relativamente simples, coisa de 3 minutos, mas aquela tia que começou a usar o computador há poucos anos parece não acreditar: “Nossa, ele é muito inteligente, conserta tudo!”.

Não acho que é questão de inteligência. Gosto muito de tecnologia e desde cedo procurei estudar sobre o assunto. Fui obrigado a arrumar problemas diariamente. Tentava, errava, estudava, tentava de novo. Depois de muitos anos fazendo isso, o que era difícil ficou naturalmente fácil. Prática, nada mais.

Na música, quando conhecemos um artista que fala a linguagem musical, que respira música e pode tocar qualquer coisa, por vezes ficamos espantados. Como ele consegue fazer isso? Seria um dom? Na maioria dos casos, é prática! Enquanto nós jogávamos futebol na praça do bairro, ele tocava piano em casa. Durante anos e anos.

A CURVA

Nos últimos dias, li alguns artigos sobre mixagem, em especial, do respeitado engenheiro Charles Dye, e voltei a refletir sobre este assunto. É muito interessante a maneira como ele descreve a curva de aprendizado, passando dicas e sentimentos que muitos de nós já tivemos ou estamos vivenciando neste momento.

Uma das etapas que mais valorizo e me interessa na produção musical é a Pré-Produção. Se eu fosse vender o meu peixe, diria que entre todas as fases da produção de um disco, esta é a atividade que desempenho melhor. Tenho uma certa facilidade para analisar sessões de uma música, visualizar o contorno, constrastes, elementos que prendem a atenção do ouvinte e partes monótonas.

Percebo as reações dos meus clientes quando sugiro uma mudança na canção. Eles costumam gostar muito e se perguntam porque não pensaram naquilo antes. Essa habilidade veio dos anos e anos de análises, que fazia conscientemente no carro, durante as horas de trânsito. Nunca encarei essas análises como um processo gradual de aprendizado. Não seguia fórumulas nem livros. Mas certamente lia bastante sobre o assunto, experimentava com as bandas e comparava com os clássicos imortais do rádio.

Em um certo momento, passei a criticar algumas músicas do rádio, para mim mesmo, inconscientemente: “Acho que tem uma falha nesta música que poderia ter sido evitada facilmente, se o produtor tivesse modificado isso aqui ou inserido aquilo ali…”.

Não percebi o significado deste momento, deste dia, deste ponto “mágico” na curva de aprendizado. Sem me dar conta, estava despretenciosamente criticando o trabalho de grandes artistas e produtores. E tudo ficou mais claro depois de ler o artigo de Charles Dye.

MIXAGEM

Ele diz que, desde cedo, quando começou a gravar e mixar em casa, nunca se achou competente o suficiente para competir com os grandes técnicos de mixagem. Escutava canções nos discos e sabia que suas mixagens estavam MUITO distantes daquela sonoridade. Nesta época, já trabalhava como técnico de mixagem há muito tempo e, embora seus clientes gostassem dos resultados, ele não achava que soavam como “discos”. Acreditava não ter o dom para mixar e considerava as mixagens comerciais algo inalcançável, muito distante, poderia estudar a vida inteira sem atingir aquele nível.

Principalmente porque quando assistia a entrevistas com os grandes engenheiros, eles pareciam ensinar apenas UM truque, ou MEIO truque, como se estivessem escondendo o jogo. Como poderia aprender desse jeito??? (Na verdade, para o entrevistado, o assunto é relativamente simples e nem sempre está querendo esconder o jogo. Está falando sobre algo que para ele é natural e óbvio).

Leitor, esses sentimentos ressoam com você? Certamente ressoam comigo! Me identifico na hora e tenho certeza que muitos de nós estamos passando por isso.

Eis que Charles Dye comenta que, num determinado dia, enquanto escutava músicas no rádio (mixagens perfeitas e sempre impecáveis) de repente elas já não soavam tão perfeitas assim… Ao invés de pensar como poderia chegar naquele resultado,  compreendeu o que tinham feito na mixagem e porque ele próprio faria diferente. Por anos e anos, sempre as considerou impecáveis, geniais, muito distantes da sua capacidade de mixar.

Mas chegou o dia em que, inconscientemente, começou a criticar alguns aspectos da mixagem, acreditando que poderia fazer melhor. Atingiu, enfim, em um novo patamar de consciência, num alto degrau da escada, depois de subir passo a passo! Neste momento, escreve, quebrou uma barreira importante da curva e nos próximos 6 meses atingiu um nível que poucos atingiram.

Ele explica que aprender a mixar não significa aprender uma técnica, fazer um curso ou ler um bom livro. Significa dominar MUITAS técnicas, que estão SEMPRE de desenvolvendo toda vez que você faz uma mixagem. TODA VEZ! Cada mixagem nos leva um degrau acima, fica um pouco melhor do que a anterior. Recomenda que cada um de nós façamos uma auto-análise para entendermos em que ponto da curva estamos.

Que técnicas você domina: equalização, compressão paralela, ajuste de volumes, uso do panorama, reverb, automação? Descubra aquelas que precisam de mais atenção e continue praticando, focando-se nelas. (Experimente escutar uma mixagem que você fez há dois anos atrás, ou até mesmo há um mês atrás. Consegue identificar coisas que hoje já faria diferente!?)

Charles Dye conclui dizendo que a partir daquele dia mágico, suas mixagens começaram a soar muito bem. Percebeu que estava perto de se tornar um bom engenheiro de mixagem e pouco tempo depois tornou-se um dos engenheiros mais respeitados na Indústria.

A questão que coloco para reflexão é: por que poucos atingiram este patamar? Dom? Consistência?

Quando gostamos muito de um assunto, nos tornamos obsessivos. Praticamos muito. Dia após dia. O caminho natural é nos tornarmos muito bons naquele assunto. A chave do sucesso é paciência, determinação, entender em que ponto da curva de aprendizado estamos e não desanimar. Acho que muita gente desanima no meio do caminho ou não acredita que possa se transformar em um excelente profissional… Por isso acho que é muito mais determinação do que genética.

Meu curso de 5 meses cobre vários assuntos. Assuntos que provavelmente demorei mais de 5 anos para compreender, apresentados de uma maneira mastigada, objetiva. Não é a solução para nos tornarmos bons produtores musicais em 5 meses, mas certamente é um atalho na curva! Siga fazendo o que você está fazendo, gravando, mixando em casa, dia após dia. Cada trabalho realizado te leva para um novo degrau. E cada conceito compreendido acelera a curva.

Sempre se lembre, nossos grandes mestres esperaram anos e anos para chegar onde estão.